
Dda jornalista britânica Rose George, publicado em 2013, entra no universo da navegação comercial por uma porta diferente daquela encontrada nos livros técnicos sobre shipping. Em vez de começar pelos mercados, navios ou estatísticas, a autora parte de uma constatação desconcertante: dependemos profundamente do transporte marítimo e, ainda assim, sabemos muito pouco sobre as pessoas e as operações que tornam possível essa circulação de mercadorias.
Rose George decidiu conhecer esse ambiente por dentro. Parte importante da experiência que deu origem ao livro ocorreu a bordo do Maersk Kendal, em uma viagem de aproximadamente cinco semanas e 9.288 milhas náuticas, partindo de Felixstowe, na Inglaterra, em direção a Singapura. Não se tratava de observar o shipping do cais. Ela estava embarcada, convivendo com tripulantes e acompanhando a rotina de uma atividade que normalmente permanece distante dos olhos de quem consome aquilo que os navios transportam.
Essa escolha muda completamente o livro.
O navio deixa de ser apenas aquela enorme estrutura que aparece no horizonte e passa a ser local de trabalho, residência temporária e parte de uma engrenagem internacional extraordinariamente complexa. Ao mesmo tempo, a autora percebe algo curioso nos grandes terminais contemporâneos: tudo parece gigantesco, dos navios aos portêineres e às pilhas de contêineres, enquanto a presença humana quase desaparece da paisagem.
Mas são justamente as pessoas que interessam a Rose George.
Ao longo da investigação aparecem marítimos, capelães que prestam assistência às tripulações, profissionais ligados à segurança da navegação e personagens encontrados durante sua passagem por diferentes regiões. A autora também acompanhou uma força de combate à pirataria no Oceano Índico, aproximando-se de uma realidade que naquele período afetava diretamente centenas de marítimos.
O contraste é poderoso.
Nas cidades, acompanhamos quase instantaneamente o percurso de uma encomenda comprada pela internet. Sabemos quando ela deixou um depósito, quando chegou a um centro de distribuição e até quando saiu para entrega. Pouco pensamos, entretanto, sobre o percurso anterior de milhares de quilômetros realizado por parte daquilo que consumimos.
Quem trouxe aquilo até aqui?
Em quais condições?
Durante quantas semanas?
Rose George transforma essas perguntas em fio condutor para mostrar a dimensão humana escondida atrás do comércio internacional.
O livro também passa por temas menos confortáveis. Bandeiras de conveniência, condições de trabalho, pirataria, impactos ambientais e colisões de navios com baleias aparecem ao lado da impressionante eficiência econômica alcançada pelo transporte marítimo. A própria editora apresenta a obra como uma investigação sobre uma indústria essencial à economia mundial, mas praticamente invisível ao público.
Essa talvez seja a maior virtude de Ninety Percent of Everything para quem pertence ao universo da Marinha Mercante.
O marítimo conhece o navio por dentro. Conhece horários, quartos de serviço, mau tempo, porto, distância, responsabilidade e ausência. Para grande parte da sociedade, entretanto, o navio mercante continua sendo apenas um ponto no horizonte ou uma fotografia impressionante de milhares de contêineres empilhados.
Rose George aproxima esses dois mundos.
Quando o livro termina, uma camisa deixa de ser apenas uma camisa, um automóvel deixa de ser apenas um automóvel e um produto importado na prateleira passa a carregar silenciosamente outra história.
Em algum momento, quase certamente, houve um navio no caminho.
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