
Quando se fala em infraestrutura marítima estratégica, a primeira imagem costuma ser um porto, um terminal de petróleo ou uma grande rota de navegação. Entretanto, uma das estruturas mais importantes da economia contemporânea permanece praticamente invisível.
Está no fundo do oceano.
Cabos submarinos de telecomunicações transportam mais de 99% do tráfego internacional de dados. Por eles passam comunicações empresariais, serviços financeiros, informações governamentais, chamadas, transações e grande parte daquilo que mantém a economia digital funcionando diariamente. Em julho de 2026, o organismo internacional criado pela União Internacional de Telecomunicações e pelo International Cable Protection Committee concluiu seu primeiro relatório global com recomendações destinadas justamente a aumentar a resiliência dessa infraestrutura.
Durante muito tempo, o maior risco aos cabos estava associado principalmente a acidentes, pesca, fundeio, atividades marítimas e fenômenos naturais.
Esse quadro ficou mais complexo.
Incidentes registrados em diferentes regiões aumentaram a preocupação com sabotagem, operações deliberadas e atividades difíceis de atribuir imediatamente a determinado Estado ou organização.
Surge aí um problema tipicamente geoestratégico.
Um cabo atravessa águas submetidas a diferentes regimes jurídicos, conecta vários países e pode pertencer a consórcios privados internacionais. Proteger fisicamente milhares de quilômetros de infraestrutura instalada no fundo do oceano é muito diferente de proteger uma instalação em terra.
A Escola de Guerra Naval brasileira chamou atenção em 2026 justamente para o crescimento das ameaças aos cabos e para a necessidade de maior consciência situacional marítima. O estudo observa que já existem mais de 600 sistemas ativos e planejados e destaca que o Brasil também possui infraestrutura crítica concentrada ao longo de seu litoral.
Há ainda outro desafio: consertar.
Quando ocorre uma interrupção, não basta enviar uma equipe por estrada. É necessário localizar a falha, mobilizar embarcação especializada, chegar ao ponto correspondente e executar uma operação submarina que pode depender das condições meteorológicas, da profundidade e da disponibilidade de navios de reparo.
Por isso, a discussão internacional deixou de tratar apenas de proteção e passou a falar também de resiliência. Um sistema verdadeiramente seguro não é aquele que acredita ser impossível sofrer uma interrupção. É aquele que possui redundância, capacidade de identificar rapidamente o problema e meios para recuperar o serviço.
Essa realidade devolve ao mar uma importância que a própria economia digital parecia ter tornado menos visível.
A nuvem não está realmente no céu.
Grande parte dela atravessa o fundo do oceano.
E, quando os países perceberam isso, os cabos submarinos deixaram de ser apenas infraestrutura de telecomunicações.
Tornaram-se geopolítica.
imagem: scontent.fsdu40-1.fna.fbcdn.net
Categoria: 8.Mundo Marítimo & Geoestratégia