
Quando o Beluga SkySails deixou a Alemanha em janeiro de 2008 rumo à Venezuela, havia algo muito estranho acontecendo sobre sua proa.
Um enorme objeto semelhante a um parapente voava centenas de metros à frente do navio.
Não era publicidade.
Era parte da propulsão.
O cargueiro de aproximadamente 132 metros de comprimento havia recebido uma pipa automatizada de cerca de 160 metros quadrados, controlada por computador e ligada à proa através de um cabo. A ideia era utilizar os ventos encontrados em altitude para ajudar o motor principal a movimentar o navio.
Parece uma solução extremamente moderna.
E, ao mesmo tempo, tem milhares de anos.
Desde a Antiguidade o homem utiliza o vento para transportar mercadorias pelo mar. O que o Beluga fazia era combinar aquela fonte de energia ancestral com computadores, sensores e um navio equipado com motor diesel.
A vela havia se transformado numa espécie de pipa inteligente.
O sistema funcionava de maneira diferente de uma vela convencional. Lançado da proa, o kite subia para encontrar ventos mais fortes e constantes. Em operação, executava movimentos controlados no ar para aumentar a força de tração. O computador administrava automaticamente boa parte desse voo.
Quando as condições não ajudavam, recolhia-se tudo e o cargueiro continuava normalmente com seu motor.
Era, portanto, um híbrido.
Durante a primeira grande experiência comercial, o Beluga SkySails navegou da Alemanha para a Venezuela, seguiu para os Estados Unidos e depois retornou à Europa. Em determinadas condições, a força produzida pela pipa permitiu reduzir significativamente a potência exigida do motor.
Os resultados mostraram também uma realidade importante: vento não é combustível que possa ser solicitado ao fornecedor na quantidade e no momento desejados.
As economias dependiam muito da rota e das condições meteorológicas. Avaliações posteriores do projeto indicaram redução média de combustível em torno de 5% numa combinação de rotas, chegando a valores maiores em condições especialmente favoráveis no Atlântico e no Pacífico Norte.
A revolução prometida não aconteceu naquele momento.
O sistema não se espalhou por dezenas de milhares de cargueiros e o Beluga SkySails acabou mudando de proprietário e de nome, passando posteriormente a navegar como Onego Deusto.
Seria fácil, então, considerar aquela experiência apenas uma curiosidade.
Só que a história deu uma volta interessante.
Com a indústria marítima pressionada a reduzir consumo de combustíveis e emissões, o vento voltou a ser levado muito a sério. Velas rígidas, rotores, asas automatizadas e novas gerações de kites passaram a ser estudados e instalados em navios mercantes.
Ou seja: a ideia que parecia excêntrica em 2008 talvez estivesse simplesmente adiantada.
E existe algo particularmente interessante nisso.
Durante mais de um século, a história da propulsão marítima parecia seguir uma direção única: primeiro abandonamos as velas pelo vapor; depois o carvão pelo óleo; depois vieram diesel, turbinas e novas alternativas energéticas.
O Beluga SkySails sugeriu outra possibilidade.
Talvez o futuro não precise escolher entre tecnologias antigas e novas.
Pode simplesmente utilizar as duas.
O cargueiro continuava queimando combustível. Mas, quando o vento aparecia, não havia nenhuma razão para desperdiçá-lo.
imagem: MV Beluga SkySails | Marine Service Noord