ROSA DA FONSECA

por CCMM

Houve um tempo em que embarcar para viajar pela costa brasileira não significava necessariamente procurar um aeroporto. Grandes navios de passageiros ligavam nossas cidades, transportavam cargas e ofereciam uma experiência que hoje praticamente desapareceu da paisagem marítima nacional.

O Rosa da Fonseca pertenceu a esse tempo.

Construído em 1962 no estaleiro Brodogradiliste Split, na então Iugoslávia, para a Companhia Nacional de Navegação Costeira, fazia parte do grupo de quatro navios que ficou conhecido como os “Cisnes Brancos”. Seus companheiros eram Anna Nery, Princesa Isabel e Princesa Leopoldina.

Não eram apenas meios de transporte.

O Rosa da Fonseca oferecia duas piscinas, salões de refeições, salão de festas, boate, bares, boutiques e amplos conveses. Podia receber cerca de 540 passageiros, ao mesmo tempo em que mantinha porões destinados à carga geral. Era, portanto, uma combinação hoje pouco familiar: navio de passageiros, cargueiro e também instrumento de integração da costa brasileira.

E havia público para isso.

Nos anos 1960, o navio participou inclusive da chamada Ponte Marítima Rio–Santos, além de realizar viagens de turismo. Fotografias daquela época mostram passageiros tomando sol junto às piscinas, jantares a bordo e o navio deixando o cais de Santos — cenas que hoje parecem pertencer a outro país marítimo.

Em novembro de 1966, numa reorganização da navegação estatal brasileira, os navios da Companhia Nacional de Navegação Costeira foram transferidos para o Lloyd Brasileiro. O Rosa da Fonseca passou então a integrar uma das mais tradicionais frotas mercantes do país.

Mas a aviação e as mudanças econômicas estavam alterando rapidamente aquele mercado.

O Brasil não era exceção. Em várias partes do mundo, os grandes navios de passageiros precisavam encontrar novas funções. Alguns desapareceram. Outros foram transformados em navios de cruzeiro.

O Rosa da Fonseca seguiu justamente esse caminho.

Em 1975 deixou a frota brasileira e foi vendido, recebendo o nome Seven Seas. Dois anos depois começou uma nova e longa etapa como Nippon Maru, operando para interesses japoneses. Mais tarde ainda se chamaria Athirah. Sua história somente terminaria em 1998, quando foi enviado para demolição na Índia.

Foram cerca de 36 anos de existência e várias vidas dentro do mesmo casco.

Talvez seja exatamente por isso que o Rosa da Fonseca mereça aparecer no Acervo.

Para quem olha hoje os grandes terminais brasileiros dominados por porta-contêineres, graneleiros e navios de apoio, pode parecer estranho imaginar famílias embarcando em um grande navio brasileiro simplesmente para viajar pela nossa própria costa.

Mas isso existiu.

E durante algum tempo havia no litoral brasileiro elegantes navios brancos, tripulados por marítimos brasileiros, transportando passageiros entre nossos portos.

O Rosa da Fonseca foi um deles.

Uma lembrança de quando viajar pelo Brasil também podia significar embarcar no Brasil.

imagem: https://www.facebook.com/groups/belemnostalgia/posts/1289345714997469/

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