
Olhando rapidamente para o Malizia–Seaexplorer, talvez seja difícil chamá-lo simplesmente de veleiro. Há um mastro, velas e um casco, naturalmente. Mas aquelas enormes estruturas curvas que saem de suas laterais denunciam que estamos diante de uma embarcação concebida segundo princípios que, há poucas décadas, pareceriam quase ficção.
São os foils. E eles mudaram profundamente a vela oceânica.
O Malizia–Seaexplorer pertence à classe IMOCA, dos veleiros de 60 pés criados para algumas das competições oceânicas mais duras do mundo. Foi projetado pelo escritório francês VPLP e construído pela Multiplast. Lançado em Lorient, na França, em julho de 2022, mede 18,28 metros e nasceu de cerca de 35 mil horas de projeto e 45 mil horas de construção, envolvendo mais de 250 pessoas.
Mas os números não são a parte mais interessante dessa história.
A grande questão enfrentada pelo skipper alemão Boris Herrmann e pelos projetistas era outra: como construir um barco extremamente rápido que conseguisse manter médias elevadas quando o oceano deixasse de colaborar?
A experiência de Herrmann no Oceano Austral teve influência direta no desenho. Em vez de perseguir apenas a velocidade máxima em condições ideais, o projeto recebeu linhas de casco mais arredondadas e uma proa curva, semelhante a uma colher, pensada para passar pelas grandes ondas do Sul com menos violência.
E então entram os enormes foils.
Funcionando de maneira semelhante a asas submersas, eles produzem sustentação à medida que a velocidade aumenta. Parte do casco é aliviada da água, diminuindo o arrasto. O barco não chega simplesmente a “voar” como alguns multicascos fazem, mas passa a navegar apoiado de maneira muito diferente de um veleiro convencional.
O resultado pode ser espetacular.
Os IMOCA modernos podem atingir velocidades próximas dos 40 nós em determinadas condições. E fazem isso sem um motor fornecendo a energia necessária à propulsão: continuam transformando vento em movimento, apenas com uma eficiência que gerações anteriores de navegadores dificilmente reconheceriam.
Há outro detalhe que torna o Malizia especialmente interessante para o nosso Acervo.
Ele não é apenas uma máquina de competição. A bordo existe um pequeno laboratório chamado Ocean Pack, capaz de medir parâmetros oceânicos durante as travessias, inclusive níveis de CO₂ na superfície do mar. Esses dados são enviados à comunidade científica e são particularmente importantes em regiões remotas, onde navios de pesquisa raramente conseguem realizar medições contínuas.
Assim, enquanto disputa posições, o barco também coleta informações sobre o oceano que atravessa.
Talvez seja justamente isso que faça do Malizia–Seaexplorer uma boa representação da embarcação de recreio e competição do século XXI. Carbono, sensores, computadores, meteorologia, análise de dados, aerodinâmica e hidrodinâmica convivem com uma tecnologia que acompanha a humanidade há milhares de anos.
O vento.
Mudaram os materiais. Mudaram os instrumentos. Mudou a velocidade.
Mas é ainda o velho vento que o leva ao outro lado do oceano.
imagem: https://www.team-malizia.com/press-releases/boris-herrmanns-team-malizia-launches-new-imoca-race-boat-malizia-seaexplorer?utm_source=chatgpt.com