NS SAVANNAH

por CCMM

O nome Savannah já apareceu em nosso Acervo. Mas atenção: não estamos repetindo a embarcação. O primeiro foi o SS Savannah de 1819, pioneiro do vapor no Atlântico. Este é o NS Savannah, lançado 140 anos depois e batizado justamente em homenagem àquele antepassado.

Curiosamente, os dois nasceram da mesma pergunta: qual será a próxima forma de mover um navio através dos oceanos?

No caso do NS Savannah, a resposta parecia estar no átomo.

Em 1953, o presidente americano Dwight Eisenhower apresentou seu programa Atoms for Peace, defendendo aplicações pacíficas para a energia nuclear. Dois anos depois surgiu a proposta de construir um navio mercante nuclear que funcionasse como demonstração tecnológica diante do mundo. O Savannah foi lançado em 1959 e iniciou suas viagens experimentais em 1962.

Não era apenas um laboratório flutuante.

O projeto procurava demonstrar que uma embarcação nuclear também poderia ser elegante, confortável e comercialmente utilizável. O casco recebeu linhas de navio de passageiros, amplos espaços públicos e acomodações para cerca de 60 passageiros, além da capacidade de transportar carga.

No coração da embarcação estava um reator nuclear de água pressurizada de 80 MW térmicos, produzindo potência suficiente para aproximadamente 20 mil shp em velocidade normal de cruzeiro. O navio foi projetado para navegar a cerca de 20 nós sem depender da gigantesca quantidade de óleo combustível exigida por um cargueiro convencional.

A promessa era fascinante.

Um navio poderia atravessar oceanos durante longos períodos carregando uma quantidade relativamente pequena de combustível nuclear. Em teoria, desaparecia uma das grandes limitações históricas da navegação a motor: reservar enorme espaço e peso para combustível.

Mas a experiência também revelou que colocar um reator dentro de um navio mercante criava problemas que iam muito além da engenharia.

Era necessário estabelecer regras para entrada em portos, treinamento de tripulantes, inspeções, segurança radiológica, responsabilidade civil e procedimentos de emergência. Cada escala internacional podia envolver entendimentos com governos e autoridades que jamais haviam recebido um navio mercante nuclear.

O Savannah acabou funcionando também como uma espécie de embaixador da tecnologia nuclear. Visitava portos, recebia visitantes e mostrava ao público uma visão otimista daquele futuro.

Em 1965 recebeu sua licença de operação comercial e passou a transportar carga regularmente. A própria Maritime Administration registraria depois que a experiência havia demonstrado que um navio mercante nuclear podia operar com sucesso no comércio normal.

Então por que os oceanos não ficaram cheios deles?

Porque provar que algo funciona não significa provar que seja economicamente vantajoso.

O Savannah era caro para operar, exigia pessoal especializado e havia sido concebido muito mais como demonstração tecnológica do que como cargueiro otimizado para gerar lucro. Ao mesmo tempo, combustíveis convencionais continuavam competitivos e a indústria marítima estava prestes a sofrer outra revolução muito mais imediata: a conteinerização.

Em 1970 terminou sua operação. No ano seguinte o reator foi desligado e o combustível nuclear retirado.

Mas o navio sobreviveu.

Hoje é reconhecido como National Historic Landmark nos Estados Unidos e permanece sob responsabilidade da Maritime Administration, que vem conduzindo seu processo de descomissionamento nuclear ao mesmo tempo em que procura preservar sua importância histórica. Em 2025, a MARAD recebeu inclusive reconhecimento pelo trabalho de conservação realizado a bordo.

Talvez o NS Savannah tenha fracassado apenas se julgarmos sua história pela quantidade de navios nucleares que vieram depois.

Como experiência, conseguiu algo extraordinário.

Mostrou que um reator poderia levar um navio mercante através dos oceanos.

A pergunta que deixou para as gerações seguintes continua atual:

Se tecnicamente podemos fazê-lo, em que momento passará a valer a pena?

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