PARATII 2

por admin

O Paratii 2 não nasceu para ficar bonito em uma marina.

Basta olhar para ele para perceber isso. Seu casco de alumínio, largo e pouco convencional, está muito distante das linhas delicadas que normalmente associamos a grandes veleiros de recreio. Mas existe uma razão para praticamente tudo que parece estranho naquele barco.

Ele foi concebido para ir onde poucos veleiros vão.

Construído a partir de um projeto desenvolvido em colaboração com o navegador brasileiro Amyr Klink, Thierry Stump e o escritório francês Bouvet & Petit, o Paratii 2 surgiu no início dos anos 2000 como uma embarcação destinada principalmente às grandes expedições oceânicas e polares.

Tem aproximadamente 30 metros de comprimento e 8,5 metros de boca. Seu casco utiliza alumínio e foi pensado para reunir duas características que normalmente parecem contraditórias: grande autonomia oceânica e capacidade de operar em lugares rasos, remotos e difíceis.

Isso explica sua aparência.

Em vez de um casco estreito e profundo típico de muitos veleiros oceânicos, o Paratii 2 é largo e possui soluções que permitem reduzir consideravelmente seu calado. A ideia era poder aproximar-se de locais onde um grande veleiro convencional simplesmente não entraria.

E existe uma característica ainda mais incomum: o barco foi concebido para poder encalhar deliberadamente.

Parece absurdo falar em encalhar um barco como qualidade de projeto. Para uma embarcação de expedição, entretanto, pode ser exatamente o contrário. Em regiões remotas e polares, poder apoiar o casco no fundo de maneira controlada facilita operações e oferece possibilidades inexistentes para embarcações que precisam permanecer permanentemente flutuando.

Os dois mastros também fogem do convencional. O sistema foi pensado para facilitar as manobras e diminuir a quantidade de trabalho necessária para controlar uma área vélica enorme.

Mas o Paratii 2 não ficou apenas no campo das experiências.

Em uma de suas grandes viagens, entre dezembro de 2003 e fevereiro de 2004, percorreu cerca de 13,3 mil milhas náuticas em 76 dias, sem escalas, numa circum-navegação polar.

Depois continuou trabalhando.

E talvez seja isso que torne sua história particularmente interessante.

O Paratii 2 não se transformou simplesmente numa lembrança das aventuras de Amyr Klink. A embarcação continuou realizando expedições e também passou a servir como plataforma para atividades científicas. Em 2018, por exemplo, levou pesquisadores em uma missão à Ilha da Trindade, a cerca de 1.200 quilômetros da costa do Espírito Santo, para estudos de ecossistemas marinhos e mergulhos científicos.

O próprio Klink afirma ter realizado dezenas de expedições à Antártica com as embarcações que desenvolveu.

É difícil enquadrar o Paratii 2 numa categoria simples.

É um veleiro particular, portanto pode perfeitamente habitar o universo da navegação de recreio. Mas é também embarcação de expedição, laboratório, plataforma de pesquisa e resultado de décadas de experiência prática acumulada no mar.

Talvez justamente por isso ele seja importante para o nosso Acervo.

Nem toda inovação marítima nasce dentro de um enorme estaleiro ou de um laboratório de uma multinacional.

Às vezes ela nasce porque alguém olha para um problema no meio do oceano e pensa:

“Meu próximo barco precisa fazer isso melhor.”

imagem: https://www.amyrklink.com.br/pt/barcos/

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