
Até março de 2021, o Ever Given era conhecido principalmente por quem trabalhava com transporte marítimo. Era um enorme porta-contêiner, como tantos outros que cruzavam silenciosamente as grandes rotas comerciais enquanto o restante do mundo pouco percebia sua existência.
Então, durante alguns dias, praticamente todo mundo aprendeu seu nome.
Em 23 de março de 2021, durante uma travessia do Canal de Suez, o Ever Given encalhou e ficou atravessado no canal. Proa em uma margem, popa próxima da outra. Uma embarcação com cerca de 400 metros havia se transformado numa barreira física em uma das mais importantes passagens marítimas do planeta. A Organização Marítima Internacional acompanhou oficialmente o incidente até o desencalhe.
A fotografia vista de cima tornou-se uma das imagens marítimas mais impressionantes das últimas décadas.
Um casco gigantesco ocupando diagonalmente um canal que, diante dele, parecia estreito demais.
O Ever Given pertence a uma geração de porta-contêineres criada para aproveitar ao máximo a economia de escala. Quanto maior a quantidade de contêineres transportada numa viagem, menor pode ser o custo unitário da carga. O problema é que o gigantismo também diminui as margens para determinados erros e aumenta enormemente as consequências quando alguma coisa acontece.
Suez é uma demonstração perfeita dessa relação.
As regras da Autoridade do Canal admitiam navios com até 400 metros de comprimento, exatamente a ordem de grandeza do Ever Given. Ou seja, os maiores porta-contêineres do mundo navegavam praticamente no limite dimensional previsto para aquela passagem.
Depois do encalhe começou uma corrida contra o tempo.
Rebocadores empurraram e puxaram o navio. Dragas retiraram material próximo ao casco. A Autoridade do Canal de Suez informou posteriormente que foram empregados 15 rebocadores, duas dragas e aproximadamente 600 trabalhadores na operação.
Enquanto isso, os navios começaram a se acumular.
Petroleiros, graneleiros, porta-contêineres, transportadores de gás e outras embarcações que deveriam atravessar o canal tiveram de esperar. Armadores passaram a considerar uma alternativa que parecia pertencer a outra época: contornar toda a África pelo Cabo da Boa Esperança.
De repente, uma parte da economia mundial estava discutindo rebocadores, calado, dragagem e marés.
Na manhã de 29 de março, seis dias depois do encalhe, a Autoridade do Canal anunciou que as manobras haviam conseguido alterar substancialmente a posição do navio. Mais tarde, o Ever Given foi completamente liberado e levado para inspeção. A navegação pelo canal pôde finalmente ser retomada.
O episódio também mostrou algo que normalmente permanece invisível para quem está em terra.
Grande parte daquilo que consumimos atravessa algum trecho do planeta dentro de um contêiner. Peças industriais, eletrônicos, roupas, equipamentos, matérias-primas e milhares de outros produtos dependem de uma cadeia logística na qual navios e portos trabalham continuamente, quase sempre longe dos olhos do consumidor.
Foi preciso que um deles parasse para percebermos isso.
O Ever Given não entrou para a história porque fosse o maior ou o mais rápido porta-contêiner já construído.
Entrou porque, durante seis dias, demonstrou de maneira quase didática que o comércio mundial pode ser gigantesco, tecnológico e globalizado — e ainda assim depender de um navio conseguir passar por um canal.
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