SAILING YACHT A

por CCMM

Existem embarcações que reconhecemos imediatamente. Um cargueiro parece um cargueiro. Um veleiro, mesmo moderno, normalmente preserva formas que permitem identificar sua função.

O Sailing Yacht A causa uma reação diferente.

É preciso olhar duas vezes.

Com 142,81 metros de comprimento, quase 25 metros de boca e três mastros que parecem torres, ele está numa escala muito distante daquela que normalmente associamos à palavra “veleiro”. Foi construído pelo estaleiro alemão Nobiskrug e entregue em 2017, com desenho exterior e interior de Philippe Starck.

Mas sua aparência extraordinária esconde uma discussão interessante.

Afinal, ele é realmente um veleiro?

Tecnicamente, trata-se de uma embarcação sail-assisted, ou seja, um grande iate motorizado cuja propulsão também pode ser auxiliada pelas velas. Sua classificação reflete justamente essa natureza híbrida.

E que velas.

Os três mastros são estruturas independentes de compósito. O principal alcança aproximadamente 100 metros acima da linha d’água, altura comparável à de um edifício de mais de 30 andares. Quando todo o sistema está aberto, a área vélica chega a aproximadamente 3.700 metros quadrados.

Operar algo dessa dimensão da maneira tradicional seria praticamente impossível.

Por isso, o Sailing Yacht A transformou uma das atividades mais antigas da navegação — içar e controlar velas — numa operação altamente automatizada. Sistemas hidráulicos, elétricos e eletrônicos assumem tarefas que durante séculos dependeram diretamente de marinheiros trabalhando no convés.

Até os mastros revelam a escala do projeto. Existem elevadores no interior deles.

O casco também guarda uma das soluções mais curiosas da embarcação: uma área de observação submarina permite olhar o oceano através de grandes superfícies transparentes instaladas abaixo da linha d’água. A propulsão convencional utiliza um sistema diesel-elétrico híbrido e duas linhas de eixo com hélices de passo controlável.

Há oito conveses e instalações para dezenas de tripulantes e convidados. Mas talvez a parte mais interessante não seja o luxo.

É a quantidade de engenharia necessária para fazer um objeto daquele tamanho funcionar também como embarcação à vela.

Um grande navio mercante pode utilizar seu volume quase inteiramente em benefício da carga. Num superiate, boa parte da engenharia precisa permanecer invisível. Máquinas, tubulações, cabos, sistemas de climatização, geração elétrica, equipamentos de navegação, estabilização e segurança precisam conviver com espaços concebidos para que o passageiro quase esqueça que existe uma praça de máquinas trabalhando abaixo dele.

No Sailing Yacht A, acrescentou-se a tudo isso um gigantesco sistema vélico.

O resultado divide opiniões. Para alguns, suas linhas são extraordinárias. Para outros, estranhas demais para um veleiro.

Mas talvez essa discussão seja justamente parte de sua importância.

Embarcações sempre refletiram a tecnologia e também a estética de seu tempo. Os clippers do século XIX pareciam radicais quando surgiram. Os primeiros vapores causaram estranheza. Grandes transatlânticos mudaram de aparência quando desapareceram seus mastros e cresceram suas superestruturas.

O Sailing Yacht A pertence a essa tradição de embarcações que provocam uma pergunta antes mesmo de conhecermos sua história:

“Que barco é esse?”

E talvez poucas coisas sejam mais interessantes para a engenharia naval do que construir algo que ainda consiga causar essa pergunta.

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