
Olhar para o Pioneering Spirit pela primeira vez pode causar certa confusão. Sua proa parece dividida em duas, deixando uma enorme abertura no centro. O convés tem proporções quase absurdas e a embarcação não se parece muito com aquilo que normalmente chamamos de navio.
Isso acontece porque ela foi projetada em torno de uma pergunta igualmente incomum:
E se, em vez de desmontar uma enorme plataforma offshore no mar, pudéssemos simplesmente levantar a plataforma inteira?
Foi para fazer exatamente isso que a Allseas desenvolveu o Pioneering Spirit.
Construído na Coreia do Sul entre 2011 e 2014 e colocado em operação offshore em 2016, ele possui 382 metros de comprimento e impressionantes 124 metros de largura. A abertura existente entre seus dois cascos na proa mede cerca de 59 metros.
A lógica de funcionamento é fascinante.
Para retirar a parte superior de uma plataforma, o Pioneering Spirit avança cuidadosamente até posicionar a estrutura entre seus dois cascos. Grandes braços horizontais entram sob a plataforma. Um sistema de compensação controla o movimento causado pelas ondas e, no momento adequado, a embarcação assume o peso da estrutura.
Depois, simplesmente vai embora com ela.
Naturalmente, “simplesmente” é uma palavra bastante inadequada para uma operação envolvendo dezenas de milhares de toneladas.
A capacidade atual do sistema chega a 60 mil toneladas para topsides, enquanto outro equipamento permite trabalhar com estruturas inferiores — os jackets — de até 20 mil toneladas. Doze propulsores azimutais ajudam a manter aquele enorme conjunto precisamente posicionado durante as operações.
Sua primeira grande demonstração aconteceu em agosto de 2016.
No Mar do Norte, o Pioneering Spirit retirou a plataforma de produção Yme, de aproximadamente 13 mil toneladas, em uma única operação. Era o começo prático de uma ideia que havia levado décadas para sair do papel.
Dois anos depois, fez o caminho contrário.
Em vez de retirar, instalou de uma só vez as 22 mil toneladas da plataforma de perfuração do campo Johan Sverdrup. Segundo a Allseas, todo o processo entre posicionar o navio, colocar a estrutura sobre o jacket e sair da área levou apenas três horas.
Em julho de 2024 veio outro recorde: a remoção das 31 mil toneladas do topside da plataforma Brent Charlie, no setor britânico do Mar do Norte, então descrita pela empresa como a mais pesada operação de içamento offshore já realizada. Mais de 97% do material da estrutura foi destinado à reciclagem.
Mas o Pioneering Spirit possui outra característica que quase desaparece diante do espetáculo de levantar plataformas.
Ele também instala dutos submarinos.
No gigantesco convés funciona praticamente uma linha industrial: tubos são preparados e soldados continuamente antes de serem lançados ao mar pela popa. O sistema possui capacidade de tensão S-lay de 2.000 toneladas e pode trabalhar da água rasa à ultraprofundidade.
Assim, a mesma embarcação que retira do oceano uma plataforma inteira pode partir para instalar quilômetros de infraestrutura submarina.
É uma boa demonstração de como algumas embarcações modernas deixaram de ser simplesmente meios de transporte.
São ferramentas industriais flutuantes.
E poucas ferramentas já construídas pelo homem têm 382 metros de comprimento.
imagem: https://www.hidromat.si/en/project/pioneering-spirit/