QUEEN MARY 2

por CCMM

Quando o Queen Mary 2 entrou em serviço, em 2004, os grandes transatlânticos pareciam pertencer definitivamente ao passado. O avião havia vencido a disputa pelo passageiro havia décadas, enquanto os navios de passageiros sobreviviam principalmente como cruzeiros: embarcações construídas para passear, visitar portos e oferecer férias no mar.

A Cunard resolveu fazer algo diferente.

Em vez de construir apenas mais um navio de cruzeiro, encomendou uma embarcação preparada para continuar realizando aquilo que seus antecessores faziam desde o século XIX: atravessar regularmente o Atlântico Norte transportando passageiros entre Europa e América.

Essa diferença parece pequena. Tecnicamente, não é.

Um transatlântico precisa enfrentar repetidamente o oceano aberto, cumprir horários e manter velocidades elevadas mesmo quando o Atlântico decide mostrar por que construiu sua reputação. Por isso, o Queen Mary 2 recebeu casco, estrutura e características de estabilidade diferentes das encontradas em muitos navios concebidos prioritariamente para cruzeiros.

Com aproximadamente 345 metros de comprimento, capacidade atual para 2.759 hóspedes e velocidade indicada pela Cunard de até 28 nós, é uma embarcação enorme. Mas sua importância está menos no tamanho que na função. A própria companhia o apresenta atualmente como o único verdadeiro ocean liner em serviço no mundo.

Sua proa alta ajuda a enfrentar mares pesados. O casco possui grande borda livre e foi concebido para suportar as condições do Atlântico Norte. Quatro pods de propulsão elétrica ficam sob a popa; dois deles podem girar 360 graus, ajudando também nas manobras.

Mas existe uma curiosidade que resume muito bem o Queen Mary 2.

Ele possui canis a bordo.

Cães e gatos podem realizar determinadas travessias transatlânticas acompanhando seus donos, preservando uma tradição dos antigos liners. É um detalhe aparentemente banal, mas que revela algo importante: aquela viagem ainda é entendida como uma verdadeira passagem entre continentes, e não apenas como um circuito turístico que começa e termina no mesmo lugar.

Naturalmente, o mundo mudou.

Hoje ninguém embarca em Southampton para chegar rapidamente a Nova York. Um avião faz isso em horas. Quem escolhe o Queen Mary 2 está fazendo justamente o contrário: transformando aquilo que o avião eliminou — o tempo da travessia — em parte da experiência.

São dias vendo apenas oceano.

E é justamente por isso que ele ocupa um lugar curioso na história marítima.

O Titanic desapareceu. O Normandie desapareceu. O original Queen Mary virou atração permanente na Califórnia. O France tornou-se Norway e acabou desmontado. O SS United States encerrou sua carreira comercial em 1969.

Enquanto isso, o Queen Mary 2 continua cruzando o Atlântico.

Não como reprodução histórica daqueles navios, mas como uma versão contemporânea da mesma ideia.

Talvez seja isso que torne sua existência tão interessante. A aviação comercial tornou o transatlântico desnecessário como meio de transporte rápido.

Mas não conseguiu tornar desnecessário o desejo de atravessar um oceano a bordo de um grande navio.

imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/Queen_Mary_2#/media/File:Qm2_portboston_(cropped).jpg

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