
Existem navios que impressionam pela velocidade. Outros, pelo luxo, pela capacidade de carga ou pela beleza de suas linhas. A Prelude FLNG impressiona por uma razão muito mais difícil de compreender à primeira vista: ela é tão grande que algumas das referências tradicionais usadas para imaginar um navio deixam de funcionar.
Com aproximadamente 488 metros de comprimento e 74 metros de largura, a Prelude é mais comprida que quatro campos de futebol colocados em sequência. A Shell informa que, totalmente carregada, a instalação desloca cerca de 600 mil toneladas.
Mas chamá-la simplesmente de “navio” também não explica exatamente o que ela é.
FLNG significa Floating Liquefied Natural Gas. Em português, uma instalação flutuante de gás natural liquefeito. A Prelude foi construída para receber gás extraído de campos submarinos, processá-lo, resfriá-lo a aproximadamente –162 °C, transformá-lo em líquido, armazená-lo e depois transferi-lo diretamente para navios transportadores.
Em outras palavras, funções que normalmente exigiriam enormes instalações industriais em terra foram colocadas sobre uma estrutura flutuante.
A Prelude foi construída pela Samsung Heavy Industries, na Coreia do Sul, e destinada aos campos de gás Prelude e Concerto, localizados a cerca de 475 quilômetros a nordeste de Broome, na Austrália Ocidental. A instalação chegou à região em 2017.
Uma de suas características mais interessantes está justamente na maneira como trabalha.
Ela não foi concebida para navegar continuamente entre portos levando carga de um lado para outro. Depois de posicionada sobre o campo de produção, permanece no mar por longos períodos, conectada às instalações submarinas. O gás chega até ela através de risers e passa por uma verdadeira indústria instalada sobre o convés.
O produto terminado é então armazenado nos tanques do próprio casco.
Quando chega o momento da exportação, outro navio se aproxima. Transportadores de LNG e LPG atracam lado a lado com a gigantesca instalação e recebem a carga no próprio mar. A produção pode, assim, seguir diretamente do campo offshore para os mercados consumidores sem passar inicialmente por um terminal terrestre convencional.
Isso cria uma situação curiosa.
Um navio mercante convencional existe essencialmente para transportar alguma coisa. A Prelude existe para produzir, processar, armazenar e entregar aquilo que outros navios transportarão.
E precisa fazer tudo isso em pleno oceano.
Seu sistema de amarração permite que a enorme estrutura gire ao redor de um ponto de ancoragem, acompanhando as condições de vento e mar. Segundo a Shell, ela foi projetada para permanecer no local mesmo diante das condições meteorológicas extremas encontradas naquela região da Austrália.
O projeto também mostra como a indústria marítima contemporânea passou a ocupar territórios que antes pertenciam quase exclusivamente às instalações em terra.
Dentro de uma mesma embarcação convivem processamento de gás, sistemas criogênicos, geração de energia, armazenamento, alojamentos, controle de produção, equipamentos marítimos e estruturas necessárias para manter centenas de pessoas trabalhando a centenas de quilômetros da costa.
É quase uma cidade industrial.
Mas uma cidade que flutua.
A Prelude enfrentou problemas operacionais e períodos de paralisação desde que começou a produzir, mostrando também a extraordinária complexidade envolvida em concentrar tantos sistemas numa única instalação. Ainda assim, permanece como um dos exemplos mais impressionantes de engenharia offshore já colocados no mar.
E talvez seja justamente por isso que mereça estar em nosso Acervo.
Porque a história das embarcações não é apenas a história de como aprendemos a construir navios maiores ou mais rápidos.
É também a história de como aprendemos a colocar no mar coisas que antes pareciam impossíveis de retirar da terra.
imagem: https://www.inpex.com/english/business/project/prelude.html