O torpedeamento do Itagiba e a guerra que chegou à Marinha Mercante brasileira

por CCMM

Em agosto de 1942, a Segunda Guerra Mundial deixou de ser, para os brasileiros, uma tragédia distante acompanhada pelos jornais e pelo rádio. Ela passou a acontecer diante do próprio litoral do país. Entre os episódios que marcaram essa mudança está o afundamento do vapor Itagiba, navio da Companhia Nacional de Navegação Costeira, atingido pelo submarino alemão U-507 no dia 17 de agosto, em águas da Bahia.

O Itagiba fazia uma viagem costeira entre o Rio de Janeiro e Recife, com escalas previstas em Vitória e Salvador. Era uma embarcação dedicada ao transporte de passageiros e cargas e fazia parte de uma realidade que durante décadas caracterizou a navegação brasileira: navios mercantes ligando regularmente diferentes portos do país, transportando mercadorias, militares, trabalhadores e famílias. Naquela viagem também seguiam integrantes do 7º Grupo de Artilharia de Dorso do Exército Brasileiro, deslocados para o Nordeste em um momento em que a defesa da costa adquiria importância crescente.

Na manhã de 17 de agosto, nas proximidades do litoral baiano, o Itagiba foi atingido por um torpedo disparado pelo U-507, comandado pelo capitão de corveta Harro Schacht. O ataque ocorreu próximo à região de Morro de São Paulo, ao sul de Salvador. O impacto provocou o rápido afundamento do navio e transformou uma viagem de cabotagem em mais um capítulo da guerra submarina que avançava sobre as rotas mercantes brasileiras.

O drama, entretanto, não terminou com o torpedeamento. Embarcações que estavam nas proximidades aproximaram-se para socorrer os sobreviventes. Entre elas estava o cargueiro Arará, que recolhia náufragos quando também foi atacado pelo mesmo submarino. Dessa maneira, homens que haviam acabado de escapar do Itagiba voltaram a enfrentar o mar e a ameaça de um novo naufrágio.

Os registros históricos apresentam pequenas divergências na composição exata das vítimas, mas as fontes convergem para 36 mortos no afundamento do Itagiba. A tragédia fazia parte de uma sequência muito maior. Nos dias imediatamente anteriores, o U-507 já havia atacado os vapores Baependy, Araraquara e Aníbal Benévolo. Depois do Itagiba, atingiu também o Arará e, pouco depois, a barcaça Jacira. Somados, os ataques daquele período deixaram mais de seiscentos mortos.

A dimensão desses acontecimentos provocou uma profunda reação no país. Até então, embora embarcações brasileiras já tivessem sido atacadas em outras regiões do Atlântico, grande parte desses episódios ocorrera longe da costa nacional. Em agosto de 1942, porém, navios de passageiros e carga estavam sendo destruídos praticamente diante das praias brasileiras. Corpos e destroços começaram a chegar ao litoral, enquanto sobreviventes relatavam o que havia acontecido no mar.

A notícia espalhou-se rapidamente. Manifestações ocorreram em várias cidades e cresceu a pressão para que o governo reagisse. Em 22 de agosto de 1942, poucos dias depois da sequência de afundamentos, o governo brasileiro reconheceu o estado de guerra contra Alemanha e Itália. A entrada formal do Brasil no conflito estaria, portanto, profundamente ligada ao que havia acontecido com seus navios mercantes e com as centenas de pessoas que viajavam a bordo deles.

O episódio do Itagiba também ajuda a compreender um aspecto algumas vezes secundarizado quando se conta a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Antes mesmo de soldados brasileiros combaterem na Europa, a Marinha Mercante já estava na linha de frente. Tripulações civis continuavam navegando, transportando pessoas e cargas essenciais em rotas cada vez mais perigosas, enquanto submarinos operavam no Atlântico e se aproximavam do litoral brasileiro.

Para os marítimos, o risco não era abstrato. O navio continuava sendo local de trabalho, moradia temporária e espaço de convivência, mas havia se transformado também em possível alvo de guerra. Estudos sobre o período mostram justamente como essas embarcações eram percebidas por suas tripulações como uma extensão de sua própria vida cotidiana, o que ajuda a dimensionar o impacto humano dos ataques.

Mais de oito décadas depois, lembrar o Itagiba não significa apenas recuperar a história de um naufrágio. Significa reconhecer uma geração de marítimos que manteve as rotas brasileiras funcionando em circunstâncias extraordinárias e compreender que a participação do Brasil na guerra começou, para muitos homens e mulheres, muito antes dos campos de batalha europeus.

O Itagiba permanece, assim, como parte da memória da Marinha Mercante brasileira e de um momento em que o oceano, que sempre havia ligado o país ao mundo, trouxe a guerra até a sua própria costa.

imagem: https://tokdehistoria.com.br

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