Todos os Santos e o primeiro embarque que quase terminou em desistência

por CCMM_gp

Em janeiro de 1978, três praticantes de Máquinas chegaram ao Todos os Santos, em Recife, para começar o estágio. Entre eles estava o Praticante de Máquinas Rogério Beltrame, que registraria a experiência na Revista Eletrônica do CCMM. O comandante recusou inicialmente o embarque, alegando falta de espaço e de aviso da companhia. Uma ordem da sede resolveu o impasse no dia seguinte.

O cargueiro pertencia ao Lloyd Brasileiro e integrava a série Baía, ao lado de Guanabara, Turiaçu e Paranaguá. Eram embarcações construídas pelo estaleiro finlandês Valmet, em Helsinque, incorporadas durante a renovação da frota na passagem dos anos 1950 para os anos 1960. Quando os jovens chegaram, portanto, encontraram um navio de uma geração anterior à dos cargueiros que a empresa recebera na década de 1970. A frota reunia embarcações de diferentes idades, origens e recursos.

Segundo a lembrança do Oficial Superior de Máquinas Rogério Beltrame, as instalações eram desconfortáveis e havia equipamentos desativados. O começo foi dominado por tarefas pesadas, distantes da expectativa criada na escola. Ele pensou em desistir. Depois de aproximadamente um mês, os três procuraram o segundo maquinista, que conseguiu mudar a distribuição do trabalho. Passaram a acompanhar os serviços de quarto e a manutenção, aprendendo a conduzir a máquina e a cuidar dela.

Essa combinação ajuda a entender o lugar do estágio na formação marítima. Na estrutura descrita pelo Centro de Instrução Almirante Graça Aranha, o CIAGA, o curso da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante reúne um período acadêmico e outro embarcado, com supervisão. A etapa a bordo permite aplicar conhecimentos a equipamentos, equipes e rotinas de um navio em operação. A organização atual não deve ser tomada como reprodução das regras de 1978, mas conserva uma ligação reconhecível entre escola e experiência profissional. O próprio CIAGA descreve o oficial de Máquinas como o profissional habilitado a conduzir e manter as instalações de máquinas.

O navio também fazia parte de uma rede de transporte que ultrapassava a costa brasileira. Em sua retrospectiva sobre o Lloyd, Sílvio dos Santos registra serviços regulares em dez linhas, com forte presença no tráfego europeu e nos Estados Unidos. Nos anos 1970, a companhia incorporou os cargueiros conhecidos como Itas e acompanhou mudanças no transporte de cargas, inclusive o crescimento do uso do contêiner. Para um praticante, embarcar naquela empresa significava entrar em contato com uma frota diversificada e com viagens internacionais.

O estágio dos três terminou após duas viagens completas entre Brasil e Europa, cada uma com três meses. Aprovados no CIAGA, foram admitidos no Lloyd. No testemunho, o Oficial Beltrame reconhece o valor que aquele navio difícil acabou tendo em sua formação. A intervenção do segundo maquinista é um detalhe decisivo: a experiência mudou quando o trabalho passou a atender ao aprendizado dos jovens.

A trajetória do Todos os Santos continuou além daquela turma. O inventário histórico TheShipsList registra sua construção em 1960 e a venda à Brasilmar em 1980, quando recebeu o nome Santo Antonio do Triunfo. O registro do navio acompanha mudanças de propriedade; a publicação do CCMM guarda outro tipo de percurso, o de quem começou a profissão dentro dele. Juntas, essas fontes permitem situar o cargueiro na frota e reconhecer sua participação na formação de oficiais.

imagem: www.diariodepernambuco.com.br

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