O navio é o único trabalho do qual não se vai para casa no fim do expediente

por CCMM

Em terra, mesmo depois de um dia difícil, existe normalmente uma fronteira bastante clara entre trabalho e vida pessoal. Fecha-se uma porta, atravessa-se uma cidade e o ambiente profissional fica para trás. Para quem embarca, essa separação simplesmente não existe.

O camarote está a poucos metros do local de trabalho. O colega com quem houve uma divergência durante o serviço continuará no mesmo navio durante o jantar, no dia seguinte e provavelmente por muitas semanas. O comandante não deixa de ser comandante porque terminou seu período no passadiço, assim como o chefe de máquinas continua convivendo com a responsabilidade pelo departamento mesmo quando está descansando.

Essa característica transforma o navio em uma organização humana muito particular. Ele é simultaneamente local de trabalho, residência, espaço de convivência e, durante determinado período, praticamente todo o universo social de quem está embarcado.

A Convenção do Trabalho Marítimo reconhece essa singularidade ao estabelecer padrões que não tratam apenas da relação de emprego. A vida a bordo envolve alojamento, alimentação, repouso, atendimento médico, instalações recreativas e outras condições que, numa atividade em terra, normalmente pertenceriam à esfera privada do trabalhador.

É também por isso que pequenas questões de convivência podem assumir proporções diferentes no mar. Um conflito não resolvido não desaparece quando alguém vai para casa. Privacidade é limitada, os espaços são compartilhados e diferenças de idade, formação, nacionalidade, cultura e personalidade permanecem convivendo dentro de uma estrutura hierárquica.

Ao mesmo tempo, essa proximidade pode produzir relações profissionais extremamente fortes. Tripulações que trabalham bem juntas desenvolvem confiança, linguagem própria e capacidade de perceber rapidamente quando alguma coisa não está normal, seja em uma operação ou no comportamento de um companheiro.

A tecnologia melhorou enormemente a possibilidade de comunicação com terra. O marítimo contemporâneo consegue conversar com a família de uma maneira inimaginável para gerações anteriores. Mas uma chamada de vídeo não elimina a distância física, nem substitui completamente aniversários, encontros, problemas familiares e acontecimentos cotidianos que continuam ocorrendo enquanto o navio está navegando.

Por isso, compreender a vida no mar exige enxergar o tripulante para além de sua função na tabela mestra.

Antes do oficial, do marinheiro, do eletricista ou do cozinheiro existe uma pessoa vivendo durante semanas no mesmo lugar em que trabalha.

Talvez essa seja uma das características mais particulares da profissão marítima: no fim do expediente, o trabalhador descansa, mas continua a bordo.

imagem: lh7-rt.googleusercontent.com

Categoria: 7.Pessoas, Formação & Vida no Mar

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