Entre o navio e a família: a saúde mental na vida embarcada

por CCMM_news_gp

A distância da família costuma fazer parte dos períodos de embarque, mas isso não significa que seja simples conviver com ela. Aniversários, problemas em casa e decisões importantes podem acontecer enquanto o marítimo está longe, cumprindo uma rotina que exige concentração e convivência diária com um grupo relativamente pequeno de pessoas e essa dimensão pessoal nem sempre aparece nos relatos sobre operações e viagens, embora faça parte da experiência de quem trabalha no mar.

Pesquisas sobre saúde mental de marítimos apontam fatores sociais que podem pesar nessa rotina, como o isolamento de familiares e amigos, as relações com colegas e supervisores e situações de intimidação ou bullying. Um estudo publicado em periódico científico também examinou como a solidão e a resiliência se relacionam com o bem-estar psicológico de profissionais embarcados. Apesar desses trabalhos não descreverem a experiência de todos os tripulantes, ajudam a mostrar que o tema merece atenção e investigação.

A possibilidade de manter contato com quem está em terra pode ajudar a preservar vínculos e dar continuidade à vida familiar durante a viagem. Por isso, as emendas de 2022 à Convenção do Trabalho Marítimo, em vigor desde dezembro de 2024, incluíram disposições sobre conectividade social a bordo. A Convenção prevê que os armadores, na medida do razoavelmente praticável, ofereçam acesso à internet, com cobranças, se houver, em valores razoáveis. Isso reconhece a importância da comunicação, embora a disponibilidade e as condições de acesso possam variar de navio para navio.

Uma chamada de vídeo pode aproximar o marítimo de casa por alguns minutos, mas não elimina a distância nem resolve, por si só, o sofrimento emocional. Também há momentos em que a conectividade é limitada por condições técnicas, custo ou regras de uso e, para quem está a bordo, a convivência com a tripulação, a privacidade possível e a confiança para conversar com alguém da equipe podem fazer diferença quando o isolamento começa a pesar.

A questão envolve ainda a cultura de trabalho. Se o marítimo teme ser ridicularizado ou prejudicado profissionalmente ao falar de uma dificuldade, pode deixar de pedir ajuda e, quando a comunicação entre a tripulação e a empresa funciona, torna-se mais possível identificar problemas antes que eles afetem o bem-estar do profissional ou a convivência no navio.

Para o setor marítimo brasileiro, essa pauta convida a ouvir marítimos e familiares sobre situações concretas: como mantêm contato, o que acontece quando surge um problema em casa e quais apoios estão disponíveis durante o embarque.

A matéria ganha força quando parte dessas experiências, respeita a privacidade das pessoas e mostra como as condições de vida a bordo influenciam os vínculos mantidos em terra.

imagem: instagram.com/p/DcfKZ9snIgS/

Categoria: Pessoas, Formação & Vida no Mar

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