
O avanço do Northern Lights transforma o carbono capturado pela indústria em uma carga marítima destinada ao armazenamento permanente sob o fundo do mar.
Uma cadeia marítima que praticamente não existia começa a ganhar escala no norte da Europa. Em vez de transportar petróleo, gás ou produtos químicos para utilização industrial, novos navios serão empregados para levar dióxido de carbono liquefeito até instalações onde o gás será armazenado permanentemente em formações geológicas localizadas sob o fundo do mar.
O projeto Northern Lights, desenvolvido por Equinor, Shell e TotalEnergies, realizou sua primeira injeção de CO₂ em agosto de 2025. O carbono foi capturado em uma fábrica de cimento na Noruega, transportado até o terminal de Øygarden e, posteriormente, enviado por uma tubulação de aproximadamente 100 quilômetros para um reservatório situado a cerca de 2.500 metros abaixo do leito do Mar do Norte.
A primeira fase possui capacidade para receber, transportar e armazenar 1,5 milhão de toneladas de CO₂ por ano. Uma expansão já aprovada deverá elevar esse volume para pelo menos 5 milhões de toneladas anuais. Para atender à nova escala, o sistema precisará de mais tanques, bombas, poços de injeção, estruturas portuárias e embarcações especializadas.
Em fevereiro de 2026, a empresa malaia MISC e a japonesa K Line obtiveram um contrato de dez anos para fornecer ao projeto um novo navio de transporte de CO₂ liquefeito. A embarcação terá capacidade aproximada de 12 mil metros cúbicos e poderá operar com gás natural liquefeito ou diesel marítimo. A entrega está prevista para o período entre o segundo semestre de 2028 e o primeiro semestre de 2029.
O modelo transforma o armazenamento de carbono em um serviço internacional. Indústrias de cimento, fertilizantes, siderurgia e processamento de resíduos poderão capturar suas emissões em diferentes países europeus, liquefazer o gás e enviá-lo por navio até o terminal norueguês. A flexibilidade marítima permite conectar instalações que dificilmente justificariam a construção imediata de um gasoduto exclusivo.
O desenvolvimento também cria uma atividade nova para a Marinha Mercante. Os navios precisam controlar temperatura e pressão da carga, operar em terminais especializados e cumprir procedimentos rigorosos de segurança. Tripulações, portos, estaleiros, classificadoras e empresas de tecnologia terão de formar competências específicas para esse mercado.
A captura e o armazenamento de carbono continuam cercados por discussões sobre custos, subsídios e efetividade ambiental. Contudo, o Northern Lights já demonstra que o CO₂ pode passar a integrar uma cadeia logística marítima regular. Para países com grandes formações geológicas offshore, inclusive o Brasil, essa experiência merece atenção tanto pelo potencial ambiental quanto pelas oportunidades industriais e navais que poderá criar.
imagem: bucka.com.br
Categoria editorial: 4.Offshore & Energia no Mar