Menos água, menos carga: a seca volta a desafiar a navegação na Amazônia

por CCMM_news_gp

A redução do nível dos rios amazônicos voltou a colocar uma velha variável no centro das decisões de quem navega para Manaus: quanto o navio poderá efetivamente carregar sem ultrapassar as condições seguras de calado. Em 2026, o problema ganhou novamente importância porque a descida das águas começou a exigir preparação antecipada das empresas, dos terminais e das autoridades.

A questão parece simples quando observada de terra. Se há menos água, reduz-se o calado e o navio transporta menos. Para quem está envolvido na operação, entretanto, essa redução desencadeia uma sequência de consequências.

Com menos carga por viagem, parte dos custos permanece praticamente inalterada. Tripulação, combustível, praticagem, apoio operacional e utilização da embarcação continuam existindo, enquanto a quantidade transportada diminui. Dependendo das condições da hidrovia, também podem ser necessários transbordos, barcaças, píeres flutuantes, alterações de escala ou emprego de embarcações de menor calado.

É por isso que a discussão sobre a chamada taxa de seca, conhecida internacionalmente como Low Water Surcharge, voltou ao cenário da navegação amazônica. A ANTAQ estabeleceu neste mês uma nova sistemática de controle, pela qual a cobrança passa a depender de análise regulatória e da demonstração dos custos extraordinários apresentados pelas empresas.

A Agência também determinou uma série de medidas preventivas diante da estiagem. Empresas de navegação, portos e terminais foram orientados a manter planos de contingência capazes de prever alternativas operacionais caso as restrições aumentem.

Os números ajudam a mostrar por que o assunto ultrapassa uma discussão tarifária. Estudo elaborado pela A&M Infra, a pedido da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem, estimou que determinadas condições de baixa profundidade podem provocar aumentos expressivos no custo unitário do transporte de contêineres. O estudo é uma simulação técnica, e não representa os custos de uma empresa específica, mas demonstra como a perda de capacidade do navio modifica a economia da viagem.

O problema torna-se ainda mais sensível porque Manaus não dispõe de alternativas terrestres equivalentes à capacidade oferecida pelo transporte aquaviário. Quando a navegabilidade diminui, a indústria, o comércio e o abastecimento regional ficam diretamente expostos às limitações do sistema fluvial.

Para o comandante, porém, existe uma realidade anterior a todas essas discussões econômicas. A quantidade de carga precisa respeitar as condições efetivamente encontradas na rota.

E essas condições não são determinadas simplesmente pela leitura do nível do rio em Manaus. Levantamentos batimétricos, informações dos práticos e profundidades verificadas nos pontos críticos fazem parte da definição do Calado Máximo Recomendado.

É nesse ponto que uma medida aparentemente pequena passa a representar toneladas de diferença na capacidade de transporte.

Na Amazônia, a profundidade disponível não é apenas um dado hidrográfico. Durante a estiagem, ela determina quanto o navio pode carregar, quanto custará transportar essa carga e, em situações extremas, se a viagem poderá ser realizada.

imagem: www.allog.com.br

Categoria: 1.Marinha Mercante & Navegação

Voce também pode gostar

Fale com
o CCMM