
O Brasil se prepara para dar um passo importante na forma como acompanha, reúne e compartilha informações sobre o que acontece no mar. No dia 3 de novembro, está prevista a ativação do Information Fusion Center Atlântico Sul, o IFC Atlântico Sul, estrutura que funcionará no Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul, o COMPAAz, no Rio de Janeiro.
A criação do centro já é informação pública. Em setembro, veículos brasileiros especializados divulgaram o projeto e informaram que o IFC Atlântico Sul foi concebido para integrar dados atualmente distribuídos entre diferentes instituições, correlacioná-los e contribuir para uma visão marítima integrada de uma área estimada em 40,3 milhões de km² do Atlântico Sul, incluindo os 5,7 milhões de km² da Amazônia Azul.
A iniciativa coloca o Brasil ao lado de experiências que vêm sendo desenvolvidas há anos em outras regiões estratégicas do planeta. Singapura e Índia são dois exemplos importantes. Seus centros mostram que, diante do volume crescente de informações produzidas por navios, autoridades, sensores, sistemas de acompanhamento e diferentes organismos nacionais, o desafio deixou de ser simplesmente obter dados.
É preciso conectá-los.
É quando diferentes informações passam a formar uma mesma imagem: um navio mercante produz e recebe informações durante toda a viagem. Autoridades portuárias possuem seus próprios dados e as Marinhas e Guardas Costeiras acompanham o tráfego e outras atividades marítimas; orgãos ambientais, policiais e aduaneiros observam aspectos específicos e empresas de navegação também possuem informações operacionais que podem ser relevantes.
Assim, isoladamente, cada participante enxerga uma parte do cenário. O conceito de information fusion procura justamente reunir essas partes. A finalidade não é criar simplesmente um grande depósito de dados, mas correlacionar informações provenientes de diferentes fontes para produzir conhecimento que possa apoiar decisões.
No projeto brasileiro, três ideias aparecem desde a apresentação do IFC Atlântico Sul: fusão de dados, integração e cooperação. Múltiplas fontes devem contribuir para uma visão integrada, apoiada por parceiros nacionais e internacionais, com o objetivo de ampliar a Consciência Situacional Marítima.
Esse conceito já possui experiências consolidadas no exterior e uma das principais referências é o Information Fusion Centre de Singapura. Criado em 27 de abril de 2009 e sediado no Changi Command and Control Centre, o IFC é hospedado pela Marinha de Singapura e funciona como centro regional de compartilhamento de informações relacionadas à segurança marítima. Seu campo de atuação inclui pirataria e roubo no mar, terrorismo marítimo, contrabando, pesca ilegal e migração irregular e o objetivo é produzir informação precisa, confiável e acionável para centros operacionais e para a própria comunidade da navegação.
A experiência acumulada desde então mostra uma característica essencial desse modelo: tecnologia sozinha não resolve o problema.
No fim de 2024, o IFC de Singapura possuía 143 parceiros em 57 países, entre Marinhas, Guardas Costeiras, agências marítimas, associações e empresas de navegação. Havia ainda 26 International Liaison Officers, os ILOs, provenientes de 20 países, trabalhando no centro. São profissionais que funcionam como ligação entre o IFC e as estruturas de seus respectivos países. A relação atual inclui representantes de Austrália, Brunei, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Malásia, Peru, Reino Unido, Estados Unidos e vários outros países.
Essa presença humana permite algo difícil de obter apenas com sistemas eletrônicos: conhecimento das águas locais, das instituições, dos procedimentos e dos canais que precisam ser acionados quando surge uma ocorrência.
A experiência de Singapura contém outro elemento particularmente interessante para a Marinha Mercante: o Centro mantém um sistema chamado Voluntary Community Reporting, VCR: os navios que operam em sua área de interesse são incentivados a informar posições, ocorrências relacionadas à segurança e comportamentos anormais observados durante a navegação. Isso inclui até ataques cibernéticos e interferências percebidas em GPS, radar e radiofrequência.
Em contrapartida, o IFC fornece aos navios participantes alertas e informações relacionadas à segurança marítima e cria-se, assim, uma via de mão dupla. O navio não aparece apenas como um ponto acompanhado numa tela. Comandante e tripulação podem transformar aquilo que observam no mar em informação útil para outros participantes da rede.
Em dezembro de 2018, outro grande centro começou a funcionar. O Information Fusion Centre – Indian Ocean Region, IFC-IOR, foi criado pelo governo da Índia e é hospedado pela Marinha indiana em Gurugram. Sua área de acompanhamento compreende o Oceano Índico e mares adjacentes. Ele acompanha questões como pirataria e roubo armado, contrabando, pesca ilegal, migração irregular e outras ocorrências marítimas.
Hoje, informa possuir 76 ligações em 28 países. Também recebe International Liaison Officers de 15 países e produz regularmente atualizações semanais e mensais, análises semestrais e relatórios anuais sobre segurança marítima. E há um detalhe particularmente relevante para o Brasil: o país aparece na relação oficial de parceiros do IFC-IOR. Portanto, o Brasil não chega ao conceito de fusão de informações marítimas sem contato prévio com essas redes internacionais.
O IFC Atlântico Sul deverá ter o COMPAAz como núcleo de fusão e trabalhar com uma extensa rede nacional. O material do projeto inclui Polícia Federal, Receita Federal, IBAMA, ICMBio, CENSIPAM, ANP, ANTAQ, DNIT, autoridades portuárias, governos estaduais, Petrobras, Transpetro e comunidade marítima.
No plano internacional, o desenho apresentado inclui Marinhas e Guardas Costeiras dos países da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, a ZOPACAS, e as Marinhas integrantes da Coordenação da Área Marítima do Atlântico Sul, CAMAS.
A rede apresentada também estabelece conexões com estruturas internacionais já existentes, entre elas IFC Singapore, IFC-IOR, IFC Latin America, Joint Interagency Task Force-South, Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics, UKMTO, ICC Yaoundé, EU CRIMARIO, MICA Center e V-RMTC/T-RMN. IFC_Atlantico_Sul
Não significa que todos esses centros sejam iguais.
Singapura desenvolveu sua estrutura em uma região marcada por enorme concentração de navegação comercial. A Índia trabalha diante das dimensões e dos desafios específicos do Oceano Índico. O projeto brasileiro nasce diante da realidade do Atlântico Sul e da necessidade de articular informações produzidas dos dois lados do oceano.
E a dimensão ajuda a compreender o desafio brasileiro. O IFC Atlântico Sul pretende contribuir para a consciência situacional em uma área marítima estimada em 40,3 milhões de km², dentro da qual estão os 5,7 milhões de km² da Amazônia Azul. A dimensão territorial do projeto já foi divulgada publicamente no Brasil em setembro. Nesse espaço circulam navios mercantes, embarcações de apoio, pesqueiros e unidades militares; também, existem portos, terminais, instalações offshore, rotas comerciais e extensas áreas nas quais diferentes interesses econômicos, ambientais e de segurança convivem.
É justamente por isso que o valor de um centro desse tipo não pode ser medido pela quantidade de informações que consegue receber. O resultado aparece quando consegue distinguir, dentro desse enorme volume, aquilo que realmente importa.
O projeto brasileiro relaciona entre os benefícios esperados maior previsibilidade operacional, segurança da navegação, coordenação por meio de um ponto focal cooperativo e aumento da confiança nas informações disponíveis. A infraestrutura prevista inclui sala operacional, área de apoio, lounge internacional e sala de reuniões, concebidos para integrar monitoramento, coordenação, recepção institucional e apoio operacional. Mas a experiência internacional indica que a parte física é apenas o começo.
Singapura construiu sua rede ao longo de 17 anos. A Índia vem fazendo o mesmo desde 2018. Nos dois casos, o centro funciona porque existem parceiros dispostos a compartilhar informações, profissionais capazes de analisá-las e canais pelos quais aquilo que foi identificado pode chegar a quem precisa agir. É essa capacidade que o IFC Atlântico Sul começará a construir.
Para a Marinha Mercante, existe ainda uma questão que merecerá ser acompanhada depois da ativação: qual será o grau de participação direta dos navios, armadores, comandantes, associações e demais integrantes da comunidade marítima brasileira no fluxo de informações do novo centro?
A experiência de Singapura mostra que essa participação pode transformar o navio de simples usuário da informação em parte ativa da rede.
Os centros de Singapura e da Índia mostram que redes desse tipo amadurecem com o tempo, à medida que estabelecem ligações, incorporam parceiros, desenvolvem procedimentos e demonstram que a informação compartilhada produz resultados concretos. O Brasil começa agora a construir sua própria experiência no Atlântico Sul e, para quem navega, entretanto, existe uma medida bastante simples para avaliar a utilidade de toda essa estrutura: uma informação pode atravessar satélites, sensores, bancos de dados, instituições e países.
No passadiço, ela só completa sua viagem quando chega confiável e a tempo de ajudar o Comandante a decidir.
imagem: CCMM_gp/IA
Categoria: 6.Segurança, Regulação & Meio Ambiente