Efeito squat: por que o navio fica mais próximo do fundo

por CCMM_gp

Um navio com calado de 10 metros encontra pela frente um canal com 11,5 metros de profundidade, já considerada a maré naquele momento. A conta parece simples: há 1,5 metro entre a embarcação e o fundo. Entretanto, essa diferença descreve uma condição estática, porque, ao navegar, o navio pode aumentar seu calado sem receber uma única tonelada de carga. Esse fenômeno, conhecido como efeito squat, ajuda a explicar por que uma passagem aparentemente confortável exige uma avaliação mais cuidadosa.

Segundo o pesquisador Dr. Tim Gourlay, em artigo publicado pelo The Nautical Institute, o squat envolve um deslocamento vertical do navio para baixo e uma mudança de trim, que é a diferença entre os calados de proa e de popa. Portanto, o casco não precisa baixar igualmente em toda a sua extensão: dependendo de sua forma e das condições de navegação, uma extremidade pode se aproximar mais do fundo do que a outra. É essa alteração durante o movimento que precisa entrar na avaliação da folga disponível.

Para compreender o fenômeno, é necessário observar o que acontece com a água ao redor da embarcação. Conforme explica Gourlay, em águas rasas a presença do casco e do fundo acelera o escoamento e reduz a pressão em determinadas regiões, fazendo o navio assumir uma posição mais baixa. O princípio de Bernoulli ajuda a entender essa relação entre velocidade do fluxo e pressão, embora a análise completa também considere as ondas produzidas pelo próprio navio. Em canais estreitos, as restrições laterais podem intensificar o efeito, pois a água encontra menos espaço para passar.

A influência dessas restrições também aparece em material técnico disponível na Rede de Bibliotecas Integradas da Marinha do Brasil, que relaciona a área disponível para o escoamento à velocidade do fluxo e à queda de pressão ao redor e sob o casco. Isso permite compreender por que o comportamento observado em águas abertas não deve ser simplesmente transportado para um canal raso e confinado. A velocidade da embarcação em relação à água também interfere no squat, e seu aumento pode consumir uma parcela maior da distância até o fundo.

Voltando ao exemplo inicial, suponha que o efeito aumente em 0,6 metro o calado no ponto mais afetado. A folga de 1,5 metro passaria a 0,9 metro, antes de considerar ondas, inclinação lateral e outras variações. Os números são hipotéticos e servem apenas para mostrar o raciocínio, mas deixam clara a diferença entre conhecer o calado de partida e estimar o espaço que permanecerá disponível durante a travessia.

Essa distância é chamada internacionalmente de under keel clearance, ou UKC, conhecida em português como folga sob a quilha. De acordo com a Australian Maritime Safety Authority (AMSA), o sistema utilizado no Estreito de Torres, entre o norte da Austrália e Papua-Nova Guiné, estima essa margem em tempo quase real. Para isso, combina informações sobre profundidade, maré, correntes, velocidade e movimentos previstos da embarcação, incluindo o squat, permitindo planejar e acompanhar a passagem por uma região de águas rasas e condições complexas.

Gourlay também recomenda que as informações sobre squat disponíveis no passadiço sejam específicas para o navio, pois embarcações diferentes não respondem da mesma maneira. Para quem estuda navegação, essa é uma aplicação concreta da hidrodinâmica: o espaço sob o casco muda com o movimento, e a velocidade escolhida participa diretamente dessa mudança. Assim, conhecer a profundidade do canal é o começo da avaliação; compreender como o navio se comportará dentro dele é o que permite interpretar aquela medida.

imagem:

Categoria: Conhecimento & Formação

Voce também pode gostar

Fale com
o CCMM