
O engenheiro civil e artista plástico Maurício Villar tem uma ligação com a Marinha Mercante que começa dentro da família. Seu pai, o comandante Villar, dedicou-se à vida no mar, e o convívio entre os dois ajudou a formar as referências que Maurício levaria para sua arte e, ao representar embarcações brasileiras, ele se aproxima de um universo que faz parte de sua história e encontra outras pessoas que também têm muito a contar sobre ele.
A trajetória do comandante Villar atravessou dois dos períodos mais difíceis do século XX. Segundo reportagem do Jornal DR1, ele atuou como oficial na Primeira Guerra Mundial e como capitão na Segunda. Essa passagem pelos conflitos situa a história familiar de Maurício em um tempo no qual o trabalho a bordo exigia enfrentar, além das dificuldades da navegação, os perigos da guerra.
Para o filho, a referência paterna chegou pelo convívio. Na reportagem “A Jornada do Mar”, a jornalista Luana Fernandes Feitosa relaciona a inspiração de Maurício no mar e na natureza à relação com o pai, mesmo sem a presença constante entre os dois. Esse dado ajuda a compreender como uma profissão pode participar da vida de toda uma família e deixar referências que seguem por outros caminhos, inclusive pela arte.
Maurício seguiu pela engenharia civil, enquanto sua produção artística deu espaço às embarcações e à história da navegação brasileira. Entre seus trabalhos estão “NT Mataripe: Tributo à Frota Nacional de Petroleiros” e “SS D. Pedro II: Tributo ao Lloyd Brasileiro”, apresentados no 29º Salão do Mar do Clube Naval. Ambas as obras foram realizadas em pintura acrílica sobre marchetaria, uma combinação presente em suas homenagens a esses navios.
A palavra “tributo”, escolhida para os títulos, dá uma indicação do sentido desses trabalhos. Ao representar uma embarcação, o artista oferece ao público a possibilidade de se aproximar de sua história e, para quem trabalhou no mar, o nome de um navio pode trazer à lembrança uma etapa da carreira, os companheiros de bordo ou o período em que precisou aprender a viver longe de casa. Para outras pessoas, a obra pode despertar a curiosidade por uma atividade que conhecem pouco.
Outra referência marítima aparece em “Tomei um Ita no Norte”, trabalho em marchetaria que integrou o 51º Salão de Belas Artes do Clube Naval, realizado em 2022. Ao lado das homenagens ao Mataripe e ao D. Pedro II, a obra mostra a continuidade desse interesse na produção de Maurício Villar.
Sua proximidade com a Marinha Mercante também se mantém no encontro com seus profissionais. Em novembro de 2024, participou de uma solenidade no Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, e falou sobre a importância da instituição e, em março de 2025, esteve em uma reunião com comandantes na qual experiências de carreira se misturaram a histórias de família, lembranças das viagens e relatos sobre a distância de casa.
É nesse convívio que a ligação com o mar ganha uma dimensão humana. Ouvir quem passou parte da vida embarcado permite conhecer, junto do profissional, a pessoa que precisou conciliar responsabilidades a bordo com os vínculos mantidos em terra. As conversas abrem espaço para compreender escolhas, dificuldades e experiências que nem sempre são percebidas por quem acompanha a navegação de fora. Para alguém cuja história familiar já passa por esse universo, como Maurício, esses encontros aproximam diferentes gerações e maneiras de viver a profissão.
Essa perspectiva também oferece uma leitura de sua arte. Os navios homenageados têm nomes e trajetórias, mas suas histórias foram construídas pelo trabalho de pessoas. Ao levá-los para uma exposição, Maurício cria uma oportunidade para que essa memória seja compartilhada, tanto por quem reconhece a embarcação quanto por quem a conhece pela primeira vez.
As obras de Maurício mostram como essa referência encontrou continuidade em suas próprias escolhas. Entre a história recebida em família e a convivência com os marítimos de hoje, sua arte mantém aberto um espaço para lembrar, conversar e conhecer as pessoas que dão vida à navegação brasileira.
imagem: jornaldr1.com.br/IA