Nunca houve tantos navios, mas transportar continua caro

por CCMM News

A indústria mundial de transporte de contêineres vive uma aparente contradição. Novos navios estão entrando em operação, a capacidade disponível cresce mais rapidamente que a demanda e as projeções indicam excesso de oferta. Ainda assim, embarcadores continuam enfrentando fretes elevados e custos adicionais em várias rotas.

A explicação está na diferença entre capacidade existente e capacidade efetivamente disponível. Um navio pode integrar a frota mundial, mas produzir menos viagens durante o ano quando precisa percorrer rotas mais longas, esperar para entrar em um porto ou permanecer fora de operação por questões de segurança.

Estimativas do mercado indicam que, entre 2026 e 2029, a demanda marítima poderá crescer aproximadamente 2,7% ao ano, enquanto a capacidade da frota avançaria cerca de 3,3%. Em condições normais, essa diferença aumentaria a concorrência e pressionaria os fretes para baixo.

As condições, entretanto, estão longe de ser normais. Desvios pelo Cabo da Boa Esperança, restrições em corredores estratégicos, congestionamentos e alterações de escala consomem parte da capacidade adicional. Viagens mais longas exigem mais navios para manter o mesmo serviço semanal, elevam o consumo de combustível e aumentam a necessidade de tripulações, manutenção e contêineres.

O retorno integral à rota do Canal de Suez poderia liberar uma parcela significativa da capacidade hoje absorvida pelas viagens ao redor da África. Essa normalização reduziria distâncias e custos, mas também lançaria mais espaço no mercado justamente quando numerosos navios recém-construídos estão sendo entregues.

O efeito poderia ser uma queda acentuada dos fretes. Para os embarcadores, isso representaria alívio. Para os armadores, significaria pressão sobre receitas e necessidade de controlar a oferta por meio do cancelamento de viagens, redução de velocidade, retirada de navios antigos ou reorganização das alianças.

A situação também explica por que o preço pago pelo cliente nem sempre acompanha a capacidade física da frota. O frete inclui combustível, risco, seguro, tempo de trânsito, confiabilidade, congestionamento, disponibilidade de equipamentos e custos portuários. Assim, pode haver navios suficientes no mundo e, simultaneamente, falta de espaço na rota e no momento em que a carga precisa ser transportada.

O setor caminha para um período delicado. Se as interrupções continuarem, o excesso de navios permanecerá parcialmente oculto pelas rotas mais longas. Se os principais corredores voltarem rapidamente à normalidade, a capacidade poderá reaparecer de uma só vez e provocar uma disputa intensa por carga.

A frota mundial está maior, mas seu tamanho deixou de explicar sozinho o comportamento dos fretes. Na navegação contemporânea, a distância que o navio precisa percorrer, o tempo que perde e o risco que assume podem ser mais importantes que o número de embarcações disponíveis.

imagem: cdn.oantagonista.com

Categoria editorial: 5. Economia, Mercados & Comércio Marítimo

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