
Há navios que se tornam famosos por vencer uma batalha, sobreviver a um naufrágio ou realizar uma grande descoberta. O Cutty Sark tornou-se uma lenda por algo aparentemente mais simples: transportar mercadorias depressa. Muito depressa.
Lançado em 22 de novembro de 1869, em Dumbarton, na Escócia, o Cutty Sark foi construído para o lucrativo comércio de chá entre a China e a Inglaterra. Naqueles tempos, chegar primeiro a Londres com a nova safra significava dinheiro, prestígio e melhores preços. O proprietário John “Jock” Willis queria, portanto, um dos cargueiros mais rápidos do mundo.
E ele ganhou uma verdadeira máquina de velocidade movida apenas pelo vento.
O casco estreito e afilado combinava uma estrutura de ferro com madeira, enquanto três mastros sustentavam uma impressionante área vélica de quase 3.000 metros quadrados. Em condições favoráveis, o Cutty Sark chegou a registrar cerca de 17,5 nós — algo extraordinário para um navio mercante a vela do século XIX.
Mas existe uma deliciosa ironia em sua história.
Enquanto o Cutty Sark era construído para aperfeiçoar o comércio marítimo à vela, a tecnologia que acabaria derrotando aquele modelo de navegação estava avançando praticamente ao mesmo tempo.
O Canal de Suez foi inaugurado na mesma semana em que o Cutty Sark foi lançado.
Para os vapores, Suez encurtava em mais de 3.000 milhas a viagem entre a Europa e a China. Para grandes veleiros, dependentes do vento e pouco adequados às condições do canal e do Mediterrâneo, aquela vantagem praticamente não existia.
O Cutty Sark havia nascido magnífico.
Só que o mundo estava mudando.
Depois de apenas oito viagens transportando chá da China, precisou procurar outra atividade. E foi justamente depois de perder o trabalho para o qual havia sido criado que o navio encontrou seus melhores anos.
A partir de 1883, passou a transportar lã australiana para a Inglaterra. Sob o comando do capitão Richard Woodget, começou a realizar travessias extraordinariamente rápidas. Em 1886, fez Sydney–Londres em 73 dias. Para aproveitar os fortes ventos dos “Roaring Forties”, Woodget levava o navio para latitudes muito ao sul, enfrentando mares violentos e até icebergs para ganhar velocidade.
O chá havia criado sua fama. A lã confirmou do que ele realmente era capaz.
Sua história ainda teria um capítulo particularmente interessante para nós.
Em 1895, o Cutty Sark foi vendido a proprietários portugueses e passou a chamar-se Ferreira. Navegou sob bandeira portuguesa durante 27 anos e, por algum tempo, recebeu ainda o nome Maria do Amparo. Somente em 1922 voltou às mãos britânicas e recuperou o nome Cutty Sark.
Sobreviveu a tempestades, perdeu lemes, sofreu desmastreamento, mudou de bandeira, tornou-se navio-escola, enfrentou a obsolescência e, já preservado, sofreu um grave incêndio em 2007.
Mesmo assim, continua existindo.
Hoje está preservado em Greenwich, em Londres, e é considerado pelo Royal Museums Greenwich o único extreme clipper sobrevivente no mundo. Mais de 90% da estrutura de seu casco é original de 1869.
Talvez seja essa a razão de o Cutty Sark continuar fascinando mais de um século e meio depois.
Ele representa o ponto máximo de uma tecnologia justamente quando outra começava a substituí-la.
Foi construído para vencer outros veleiros. Seu verdadeiro adversário, porém, era o navio a vapor.
imagem: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2782/cutty-sark/