CLC Sérgio de Moura: quase oito mil dias olhando o Brasil a partir do mar

por CCMM

Quarenta anos de profissão.

Quase oito mil dias de mar.

Os números ajudam a apresentar o Capitão de Longo Curso Sérgio de Moura, mas dizem pouco sobre aquilo que realmente existe por trás deles.

Oito mil dias embarcado significam mais de vinte anos da vida passados fisicamente sobre a água, quando esses períodos são somados. É tempo suficiente para assistir à transformação dos navios, da navegação, dos equipamentos do passadiço e da própria indústria marítima brasileira.

Sérgio de Moura construiu sua carreira justamente atravessando algumas dessas mudanças.

Em registro recente da Agência Marinha de Notícias, aparece como comandante do PSV Gemsbok, embarcação de apoio marítimo empregada em uma atividade que se tornou fundamental para a indústria offshore brasileira. Na ocasião, acumulava 40 anos de profissão e quase oito mil dias de mar.

Os PSV, ou Platform Supply Vessels, fazem parte de um universo marítimo bastante diferente daquele dos tradicionais cargueiros de longo curso.

São embarcações concebidas para atender plataformas e unidades offshore, transportando equipamentos, suprimentos, fluidos e diferentes tipos de carga. Operam próximas a instalações onde espaço, condições meteorológicas e precisão de posicionamento transformam cada aproximação em uma operação que exige atenção permanente.

E foi justamente o posicionamento dinâmico uma das áreas às quais Sérgio de Moura também dedicou seu conhecimento técnico.

Em publicação comemorativa dos 90 anos do Tribunal Marítimo, aparece como Capitão de Longo Curso, Juiz do Tribunal Marítimo e especialista em Armação de Navios e Navegação Comercial, assinando trabalho sobre posicionamento dinâmico e geração de energia oriunda do mar.

É uma combinação que ajuda a compreender a amplitude adquirida por sua carreira.

O comandante que viveu milhares de dias embarcado passou também a analisar tecnicamente uma das tecnologias que transformaram a indústria offshore.

O posicionamento dinâmico permite que uma embarcação mantenha posição e aproamento por meio do controle coordenado de seus propulsores, sem depender exclusivamente de ancoragem. Para quem observa da costa, pode parecer apenas uma evolução tecnológica. Para quem opera próximo a uma plataforma, é parte essencial da segurança e da precisão da operação.

A experiência de Sérgio de Moura chegou também ao Tribunal Marítimo.

Ali, a perspectiva muda novamente.

O homem acostumado a tomar decisões a bordo passa a participar da análise de fatos e acidentes da navegação, agora diante de documentos, provas, depoimentos e normas.

Mas talvez uma de suas observações mais interessantes esteja fora da tecnologia e do Direito.

Ao falar à Agência Marinha de Notícias sobre a importância da Marinha Mercante para o país, Sérgio chamou atenção para algo que frequentemente passa despercebido: navios mercantes brasileiros navegando pela costa, pelas hidrovias e no longo curso não representam apenas transporte.

Representam também presença.

Na sua visão, uma Marinha Mercante forte participa do próprio Poder Marítimo brasileiro. Quanto maior a presença de embarcações nacionais navegando pelas águas do país e além delas, maior também é a presença brasileira nesses espaços.

É uma reflexão que ganha outro peso quando vem de alguém que passou quase oito mil dias no mar.

O Brasil costuma olhar para o oceano a partir da praia.

O marítimo faz o contrário.

Olha para o Brasil a partir do mar.

Depois de quatro décadas de profissão, Sérgio de Moura teve tempo suficiente para enxergar o país muitas vezes dessa perspectiva.

Talvez por isso sua trajetória ajude a lembrar algo que deveria ser evidente para uma nação com mais de sete mil quilômetros de litoral: a Marinha Mercante não começa nem termina no transporte de cargas.

Ela também é presença brasileira no mar.

imagem: De Moura Shipping

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