The Sea and Civilization: A Maritime History of the World

por CCMM

Do historiador marítimo Lincoln Paine, publicado em 2013, propõe uma inversão fascinante: contar a história da humanidade olhando para a água, e não para a terra. Em quase oito séculos de narrativa, Paine percorre migrações, comércio, navegação, construção naval, conflitos e intercâmbios culturais para demonstrar quanto oceanos, mares, rios e outras vias navegáveis participaram da formação das sociedades.

Estamos acostumados a imaginar a história desenhada por fronteiras terrestres. Países aparecem nos mapas separados por linhas, montanhas e territórios. O mar costuma ocupar o espaço azul entre eles.

Paine praticamente vira o mapa do avesso.

Durante grande parte da experiência humana, a água não representou apenas separação. Foi caminho. Pessoas, mercadorias, técnicas, línguas, religiões e conhecimentos circularam por oceanos e rios muito antes do surgimento dos modernos sistemas de transporte. A editora descreve a obra justamente como uma releitura da história mundial pela perspectiva da atividade marítima.

Essa perspectiva permite escapar de uma narrativa exclusivamente europeia.

O livro passa pelo Egito, Mesopotâmia e Vale do Indo, pelas culturas marítimas da Antiguidade, pela Índia, pelo Sudeste Asiático e pelo Extremo Oriente. Paine dedica atenção às sociedades que utilizaram conhecimentos de navegação, construção de embarcações e comércio para estabelecer contatos e rotas muito antes da expansão marítima europeia.

Há nisso uma lembrança importante para o mundo marítimo contemporâneo.

A globalização não começou com o contêiner.

Muito antes dos grandes porta-contêineres, petroleiros e graneleiros que hoje atravessam os oceanos, embarcações já ligavam comunidades distantes. Naturalmente, a escala era outra, assim como os riscos e a tecnologia disponível. Mas a necessidade humana de transportar pessoas, alimentos, matérias-primas, objetos e conhecimento através da água atravessa milênios.

A evolução das embarcações acompanha essa história. Técnicas de construção mudam, sistemas de propulsão avançam, instrumentos de navegação se desenvolvem e novas rotas tornam-se possíveis. A obra chega aos tempos modernos, alcançando inclusive a navegação comercial contemporânea e os navios porta-contêineres.

Talvez o aspecto mais interessante esteja justamente nessa continuidade.

Um navio mercante moderno, equipado com sistemas eletrônicos de navegação, comunicações por satélite e máquinas de enorme potência, parece pertencer a um universo absolutamente distante das primeiras embarcações utilizadas para travessias marítimas.

Tecnicamente, pertence.

Historicamente, nem tanto.

Existe um mesmo impulso atravessando essas épocas: alcançar outro lugar através da água.

Ao reconstruir esse percurso, Lincoln Paine também mostra que domínio marítimo, comércio e poder frequentemente caminharam próximos. Rotas comerciais criaram prosperidade, portos favoreceram cidades e o conhecimento dos mares ampliou a capacidade de diferentes sociedades estabelecerem relações muito além de suas fronteiras imediatas.

Para o leitor ligado à Marinha Mercante, The Sea and Civilization oferece algo maior do que uma história dos navios.

Ele reposiciona o próprio mar.

Em vez de cenário onde os acontecimentos ocorrem, o mar passa a ser parte ativa deles. E aquilo que hoje chamamos de shipping aparece como uma etapa contemporânea de uma relação muito mais antiga entre navegação, comércio e desenvolvimento humano.

Depois de centenas de páginas atravessando séculos e continentes, fica difícil olhar para um navio mercante moderno apenas como uma unidade transportadora.

Atrás dele existem milhares de anos de tentativas humanas de vencer distâncias pela água.

imagem: https://www.abebooks.com/Sea-Civilization-Maritime-History-World-Paine/32458519948/bd

Voce também pode gostar