A Revista Eletrônica do CCMM como testemunho da transformação do setor marítimo

por CCMM

Durante muitos anos, a Revista Eletrônica do Centro dos Capitães da Marinha Mercante cumpriu uma função que ia muito além da simples divulgação institucional. Ao reunir artigos técnicos, relatos profissionais, registros de eventos, memória marítima, homenagens e discussões sobre a atividade, ela acabou formando, edição após edição, uma espécie de retrato contínuo das mudanças vividas pela Marinha Mercante brasileira.

Esse valor se torna mais evidente quando observamos a publicação ao longo do tempo.

Há referências à Revista Eletrônica pelo menos desde os anos 2000. Em 2008, por exemplo, ela já publicava trabalhos sobre portos brasileiros e questões ligadas à administração portuária. Em março de 2012, a edição nº 93 trouxe um artigo sobre a revolução provocada pelo ECDIS na bandeira brasileira. Em dezembro de 2013, a edição nº 114 discutia a burocracia enfrentada pelos navios nos portos nacionais. Esses exemplos mostram uma publicação acompanhando simultaneamente tecnologia, operação e gestão.

É justamente aí que reside parte de sua importância histórica.

Quando um novo equipamento chega ao passadiço, quando uma norma altera a rotina de bordo ou quando mudanças regulatórias afetam os portos, o impacto real nem sempre aparece imediatamente nos grandes livros de história. Ele surge primeiro nas conversas profissionais, nas palestras e nos textos escritos por quem está vivendo aquela transformação.

A Revista Eletrônica registrou muito desse momento intermediário.

Ela permitia que comandantes, oficiais e outros profissionais escrevessem a partir de sua própria experiência, criando um material que hoje ajuda a perceber como determinadas mudanças foram entendidas por quem estava dentro da atividade marítima.

A publicação também possuía uma característica importante: os assuntos técnicos conviviam com memória, história e relatos pessoais.

Um exemplo interessante ocorreu em 2014, quando a própria Revista Marítima Brasileira, da Marinha do Brasil, reproduziu o texto “O lado pitoresco da vida naval”, originalmente publicado na edição nº 120 da Revista Eletrônica do CCMM, de 15 de setembro daquele ano. O relato recuperava lembranças de bordo e a figura de um antigo mecânico do Lloyd Brasileiro, mostrando como conhecimento profissional e memória humana podiam ocupar o mesmo espaço editorial.

Essa mistura talvez explique boa parte da identidade da publicação.

A Revista não tratava a Marinha Mercante apenas como uma atividade econômica ou técnica. Tratava-a também como uma comunidade.

Navios aparecem em suas páginas, mas aparecem igualmente os homens que os comandaram, os profissionais que trabalharam nas máquinas, os acontecimentos vividos a bordo, as instituições que participaram do setor e os debates que mobilizavam cada geração.

Em 2014, por exemplo, uma referência externa à publicação identificava o CLC Luiz Augusto Cardoso Ventura como responsável pela edição mensal da Revista Eletrônica. O mesmo registro mostra como o próprio veículo já era reconhecido fora do Centro como um meio de preservação da memória dos capitães e da Marinha Mercante.

Mais tarde, essa responsabilidade editorial passaria também pelas mãos de outros associados.

Na edição nº 150, publicada em 30 de setembro de 2020, constava como responsável pela edição e arte o CLC Afonso de Almeida Corrêa. O número também permite perceber a longevidade alcançada pela Revista. Já não se tratava de uma experiência ocasional, mas de uma publicação que havia atravessado anos acompanhando diferentes momentos do Centro e do próprio setor marítimo.

Essa edição de 2020 é particularmente interessante porque funciona quase como uma fotografia de seu tempo.

Logo nas primeiras páginas aparece o aviso de que as atividades presenciais do CCMM permaneceriam interrompidas devido à pandemia de Covid-19 e que a secretaria continuaria funcionando em regime de trabalho remoto. Ao lado dessa informação institucional, a Revista trazia matérias históricas sobre a Marinha Mercante, discussões relacionadas à segurança da navegação, conteúdos técnicos e informações sobre livros e atividades do Centro.

Em uma mesma edição, portanto, apareciam a pandemia, a história da Segunda Guerra Mundial, procedimentos de navegação moderna e a rotina institucional.

Isso mostra como uma revista periódica pode se tornar fonte histórica quase sem perceber.

Quando aquela edição foi preparada, a informação sobre o funcionamento em home office servia principalmente aos associados. Hoje, ela registra de maneira concreta como uma instituição marítima tradicional reagiu a uma situação excepcional que atingiu o mundo inteiro.

O mesmo acontece com os textos técnicos.

Na edição nº 150 aparecem discussões envolvendo AIS, radar, ARPA, Voyage Data Recorder e responsabilidades do oficial de quarto no uso dos equipamentos eletrônicos. Lidos no contexto atual, esses textos ajudam a identificar as preocupações de segurança e treinamento de determinada etapa da evolução tecnológica dos passadiços.

Em outros momentos, a Revista preservou acontecimentos ligados à própria história da Marinha Mercante.

Um artigo publicado na edição nº 142, em março de 2017, foi apresentado como um registro para a memória da Marinha Mercante brasileira. Já a edição nº 147, de agosto de 2018, publicou um trabalho sobre a história do sinal de socorro SOS. A variedade dos temas revela uma preocupação recorrente com a preservação do conhecimento e das tradições da profissão.

Essa característica aproxima a Revista Eletrônica de outros veículos produzidos pelo Centro ao longo de sua história.

O antigo Diário de Bordo, a própria Revista Eletrônica e posteriormente O Sextante representam diferentes etapas de uma mesma preocupação: manter um canal de comunicação entre os associados e criar espaço para circulação de conhecimento.

O suporte, a aparência, a periodicidade mudou. Mas a função de registrar permaneceu. E é justamente essa continuidade que hoje oferece uma oportunidade particularmente valiosa. As antigas edições podem ser observadas não apenas como publicações encerradas, mas como uma base documental capaz de alimentar novas matérias sobre História, Conhecimento, Personalidades, Eventos e Livros.

Uma referência encontrada em uma revista pode levar a um comandante. O nome desse comandante pode levar a uma palestra. A palestra pode levar a uma fotografia, que pode identificar outros associados. E assim a memória institucional vai deixando de ser um conjunto de arquivos isolados para transformar-se numa rede de informações relacionadas.

Há ainda um aspecto que merece atenção.

Publicações profissionais como essa preservam algo que os documentos oficiais normalmente não conseguem registrar: a maneira como os próprios integrantes de uma profissão enxergavam seu mundo. Leis mostram o que deveria ser feito e relatórios administrativos mostram o que foi executado. A Revista mostra aquilo que os marítimos estavam discutindo.

Essa diferença é fundamental para quem pretende compreender verdadeiramente uma época.

Quando um comandante escreve sobre ECDIS, burocracia portuária, liderança ou uma experiência vivida décadas antes no Lloyd Brasileiro, ele não oferece apenas informação. Ele deixa também sua interpretação profissional daquele momento.

Por isso, preservar a Revista Eletrônica significa preservar vozes.

A edição nº 154 ainda era mencionada em 2021, com destaque para matérias relacionadas ao setor e condecorações recebidas por capitães da Marinha Mercante. O próprio registro externo agradecia a participação dos CLCs Álvaro e Afonso na divulgação desses conteúdos.

Mais uma vez, a Revista aparece como ponto de encontro entre instituição, profissionais e comunidade marítima.

Hoje, olhando retrospectivamente para essas edições, seu significado se amplia.

Elas acompanharam mudanças no passadiço, transformações dos portos, novas exigências de segurança, alterações na própria Marinha Mercante e mudanças internas do Centro dos Capitães.

Registraram também pessoas. E são justamente essas pessoas que dão sentido aos documentos.

Ao reorganizar esse acervo no novo Portal, o CCMM tem a possibilidade de fazer algo que vai além de simplesmente conservar arquivos digitais. Pode devolver essas publicações à circulação, relacionando matérias antigas com novas pesquisas e permitindo que informações produzidas anos atrás sejam novamente descobertas.

É nesse momento que a Revista Eletrônica deixa de ser apenas uma publicação descontinuada.

Ela se transforma em testemunho.

Testemunho das tecnologias que chegaram, das preocupações que mudaram, dos comandantes que escreveram, das instituições que participaram e de uma Marinha Mercante que atravessou sucessivas transformações sem perder a necessidade de registrar e transmitir conhecimento.

Talvez seja exatamente esse o maior valor de suas muitas edições: cada uma registrou o presente de seu tempo e, sem saber, ajudou a construir a memória que hoje permite contar a história do CCMM e da própria Marinha Mercante brasileira.

imagem: ccmm

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