Da navegação astronômica aos sistemas eletrônicos: como mudou o trabalho no passadiço

por CCMM

Durante boa parte da história da navegação, o oficial de quarto precisava construir sua posição a partir da observação do mundo ao redor. O horizonte, o Sol, as estrelas, a costa, os faróis, a agulha magnética e a carta náutica formavam um conjunto de referências que exigia conhecimento, paciência e interpretação.

No passadiço de um navio mercante, navegar era um processo contínuo de observação.

A posição não aparecia pronta. Ela precisava ser obtida.

Em alto-mar, a navegação astronômica ocupava lugar central. O sextante permitia medir a altura de um astro em relação ao horizonte e, combinando essa observação com a hora correta, almanaques e cálculos, o oficial podia chegar a uma linha de posição e, posteriormente, determinar onde o navio se encontrava.

Não era um trabalho automático. Era preciso dominar o instrumento, conhecer os cálculos e saber reconhecer um resultado que não parecia coerente com a realidade da viagem e essa última parte talvez seja uma das mais importantes. O navegador tradicional não trabalhava apenas com números. Ele precisava desenvolver aquilo que muitas gerações de marítimos aprenderam a chamar de senso de posição.

Se o cálculo indicava uma posição que não combinava com a estima, com as correntes, com a velocidade do navio ou com aquilo que podia ser observado ao redor, alguma coisa precisava ser conferida. A navegação era construída por comparação. A estima indicava onde o navio provavelmente estaria e uma observação astronômica corrigia essa posição.

Próximo à costa, marcações de faróis e acidentes geográficos ofereciam novas referências. A profundidade podia confirmar a aproximação de determinada região e nenhuma informação era considerada isoladamente. Com o avanço da tecnologia, esse ambiente começou a mudar. O radiogoniômetro permitiu utilizar estações transmissoras em terra para obter linhas de posição. Sistemas como Decca, Loran e Omega, em diferentes períodos e regiões, ofereceram novas formas de determinar a posição sem depender exclusivamente da observação dos astros.

O radar acrescentou uma transformação ainda maior. Pela primeira vez, o oficial podia observar em uma tela a presença de costa, navios e outros alvos mesmo quando a visibilidade não permitia enxergá-los diretamente e isso mudou a maneira de navegar em nevoeiro, durante a noite e em regiões de tráfego intenso.

Depois vieram recursos de acompanhamento automático de alvos, culminando em sistemas como o ARPA, capazes de auxiliar na avaliação de rumo, velocidade, distância mínima de aproximação e risco de colisão.

A informação começou a chegar cada vez mais rapidamente ao passadiço. Mas talvez nenhuma mudança tenha sido tão perceptível quanto a chegada da navegação por satélite. Com o GPS, a posição deixou de ser algo obtido periodicamente e passou a estar disponível continuamente. Latitude e longitude apareciam diante do oficial em tempo praticamente real e para uma geração acostumada a preparar cálculos, observar o Sol e depois marcar a posição na carta, isso representou uma mudança extraordinária.

Ainda assim, durante anos, o novo e o antigo conviveram.

Era comum o GPS fornecer a posição e o oficial transferi-la para a carta de papel. O radar podia confirmar a distância da costa. A estima continuava sendo atualizada. O sextante permanecia a bordo e ainda fazia parte da formação.

O passadiço estava se tornando eletrônico, mas ainda não digital.

Essa transformação avançou quando os sistemas começaram a conversar entre si: radar, GPS, girocompasso, ecobatímetro, piloto automático, AIS e outros equipamentos passaram progressivamente a compartilhar informações. A chegada do ECDIS, o Sistema de Apresentação de Cartas Eletrônicas e Informações, levou essa integração a outro nível.

As cartas eletrônicas começaram a surgir nos anos 1990 e, em 2000, a Organização Marítima Internacional alterou a SOLAS para permitir que um ECDIS adequado atendesse às exigências de porte de cartas náuticas. Em 2009, a IMO aprovou a introdução obrigatória do sistema para determinadas classes de navios, numa implantação progressiva que começou a entrar em vigor em 2011.

O significado dessa mudança foi muito além de retirar a carta de papel da mesa.

O ECDIS permitiu reunir no mesmo ambiente a carta eletrônica, a posição do navio, a derrota planejada e informações de outros sensores. Com configurações adequadas, o sistema também passou a emitir alertas relacionados a profundidades, desvios de rota e aproximação de perigos.

O oficial ganhou mais informação e ganhou também uma nova responsabilidade: saber administrá-la. Esse é um dos aspectos mais importantes da transformação do passadiço moderno. A dificuldade deixou de ser apenas encontrar a informação e, em muitos casos, passou a ser decidir quais informações realmente importam em determinado momento. Uma tela pode mostrar posição, velocidade, alvos, profundidade, previsão meteorológica, tráfego, alarmes e dezenas de outros parâmetros simultaneamente.

Tudo isso pode aumentar a segurança.

Mas uma quantidade excessiva de dados também pode produzir distração, dependência dos equipamentos e perda da visão global da situação. É por isso que a formação do oficial mudou junto com a tecnologia. Não basta saber operar um equipamento. É preciso entender suas limitações.

O GPS pode apresentar interferência ou ser afetado por bloqueio e falsificação de sinal. O radar depende de regulagem e interpretação adequadas. O AIS transmite informações úteis, mas algumas delas são inseridas manualmente e podem estar incorretas. O ECDIS também depende de configuração, atualização e utilização corretas.

Mesmo nos sistemas mais modernos, a tecnologia não elimina a necessidade de julgamento profissional.

A Organização Hidrográfica Internacional estabelece que, quando o ECDIS é utilizado para atender às exigências de porte de cartas da SOLAS, ele deve ser aprovado, utilizar cartas eletrônicas oficiais atualizadas e dispor de arranjos adequados e independentes de contingência. E a evolução continua.

A IMO trabalha há anos com o conceito de e-navigation, definido como a coleta, integração, troca, apresentação e análise harmonizadas de informações marítimas, a bordo e em terra, por meios eletrônicos, buscando aumentar a segurança da navegação de um berço ao outro. Ao mesmo tempo, a Organização Hidrográfica Internacional iniciou uma nova etapa com o padrão S-100.

A partir de 2026, diferentes especificações operacionais começaram a entrar em vigor, permitindo que futuros sistemas integrem, além das cartas eletrônicas, informações como batimetria de alta resolução, níveis de água, correntes de superfície e avisos à navegação. O passadiço tende, portanto, a tornar-se ainda mais integrado.

Isso torna particularmente interessante olhar para a carreira de alguns comandantes da Marinha Mercante.

Há profissionais que começaram navegando com sextante, tábuas e carta de papel. Depois conheceram radionavegação e assistiram à chegada do radar moderno; usaram Decca, Loran ou outros sistemas, receberam o GPS, passaram pelo ARPA e aprenderam ECDIS. E terminaram a carreira diante de um passadiço integrado que teria parecido ficção científica quando fizeram seu primeiro embarque.

Poucas profissões oferecem uma transformação tão grande dentro da vida profissional de uma única pessoa.

Mas há algo que não mudou na mesma proporção: o oficial continua precisando olhar para fora. Continua precisando compreender o movimento do navio, o mar, a visibilidade, o tráfego e o comportamento dos outros navios, desconfiando quando uma informação não parece coerente. E continua precisando tomar decisões.

Talvez essa seja a maior lição da passagem da navegação astronômica para os sistemas eletrônicos.

A tecnologia mudou profundamente a maneira de obter e apresentar informações, mas não transferiu para as máquinas a responsabilidade pela navegação.

O sextante exigia do oficial capacidade para encontrar sua posição. O passadiço eletrônico exige capacidade para compreender uma quantidade muito maior de informações sem perder a consciência daquilo que realmente está acontecendo ao redor do navio e, por isso, entre uma observação do Sol feita no meio do oceano e uma posição apresentada instantaneamente pelo ECDIS existe uma enorme distância tecnológica.

Profissionalmente, porém, permanece o mesmo princípio: o equipamento informa; o navegador interpreta.

imagem: nautilusshipping.com

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