Rio Grande avança no monitoramento do tráfego enquanto Sul prepara nova gestão das hidrovias

por CCMM_news_gp

A infraestrutura aquaviária do Rio Grande do Sul passa por uma transformação que vai além de obras físicas. Dragagem, manutenção de calados, monitoramento eletrônico do tráfego e gestão integrada das hidrovias começam a ser tratados como partes de um mesmo sistema, numa tentativa de aumentar a previsibilidade das operações e reduzir interrupções na navegação.

No Porto do Rio Grande, uma das principais iniciativas é a implantação do Vessel Traffic Service, o VTS. O sistema permite acompanhar o movimento das embarcações e integrar informações importantes para a navegação, como vento, maré, correntes e até a salinidade da água, variável especialmente relevante nas operações ligadas à Lagoa dos Patos.

Na prática, trata-se de ampliar a capacidade de conhecer o que acontece no ambiente aquaviário e utilizar essas informações na organização do tráfego. Para comandantes, práticos, terminais e autoridades portuárias, dados mais precisos significam melhores condições para planejar movimentos e administrar situações que podem afetar uma operação.

Esse avanço tecnológico ocorre enquanto o Rio Grande do Sul tenta recuperar e reorganizar uma rede hidroviária duramente afetada pelas enchentes de 2024. No Rio Taquari, estão sendo executados serviços de dragagem de manutenção e sinalização náutica, enquanto estruturas como as barragens-eclusas de Amarópolis, Anel de Dom Marco e Bom Retiro do Sul passam por trabalhos de operação e manutenção.

Ao mesmo tempo, está em discussão uma mudança mais ampla no modelo de gestão. O Sistema Aquaviário Integrado do Sul e Lagoa Mirim, conhecido como SAI Sul-Mirim, pretende reunir sob uma estrutura integrada os acessos aquaviários aos portos de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, além de trechos da Lagoa dos Patos, Lago Guaíba e dos rios Jacuí, Caí, dos Sinos e Gravataí.

A proposta de concessão prevê um contrato inicial de 25 anos. Entre as responsabilidades previstas estão dragagem contínua, sinalização e balizamento, levantamentos hidrográficos, monitoramento meteoceanográfico e operação de sistemas de gestão do tráfego aquaviário.

Há um ponto particularmente importante nesse modelo: a remuneração da futura concessionária deverá estar vinculada ao nível de serviço entregue, incluindo a manutenção das condições de navegabilidade e dos parâmetros de calado previstos contratualmente.

Essa lógica toca em um dos problemas históricos da infraestrutura aquaviária. Para quem opera um navio, não basta saber que determinada hidrovia foi dragada ou recebeu uma obra. É necessário saber se as condições estarão disponíveis quando a embarcação precisar passar.

Previsibilidade de calado, sinalização confiável e informações atualizadas sobre as condições da via têm reflexo direto no planejamento da viagem, na quantidade de carga transportada, nos custos e na segurança da navegação.

A integração da Lagoa Mirim acrescenta ainda uma dimensão internacional ao projeto, pela possibilidade de fortalecer a ligação logística entre Brasil e Uruguai.

O processo ainda está em discussão. A consulta pública sobre a concessão do SAI Sul-Mirim foi prorrogada até 14 de outubro de 2026, permitindo a apresentação de contribuições aos documentos técnicos e jurídicos que orientarão o futuro modelo.

Para a Marinha Mercante, talvez seja justamente esse o aspecto mais importante do que está acontecendo no Sul. Obras continuam necessárias, mas a eficiência de uma hidrovia depende também da capacidade de garantir condições permanentes de navegação. O desafio passa a ser transformar profundidade, sinalização, informação e controle do tráfego em um serviço disponível de maneira contínua para quem efetivamente utiliza a via.

imagem: storage.transportemoderno.com.br

Categoria: 2.Portos, Terminais & Logística

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