
Quem conheceu Jacques-Yves Cousteau pela televisão provavelmente se lembra imediatamente do Calypso. Mas, nos anos 1980, Cousteau começou a imaginar uma embarcação completamente diferente.
Ele queria continuar utilizando motores, mas não aceitava que o vento — uma fonte de energia gratuita disponível em pleno oceano — fosse simplesmente desperdiçado.
O resultado foi a Alcyone.
Vista de longe, a embarcação de aproximadamente 31 metros parece possuir duas enormes chaminés brancas. Só que nenhuma delas é uma chaminé.
São Turbosails.
A ideia desenvolvida por Cousteau com Lucien Malavard e Bertrand Charrier utilizava cilindros verticais fixos, associados a um sistema de aspiração de ar. Em vez de trabalhar exatamente como uma vela tradicional, aquela superfície produzia uma força aerodinâmica semelhante à de uma asa.
A aparência era estranhíssima.
O princípio, porém, funcionava.
Antes da Alcyone, uma versão experimental havia sido instalada no pequeno Moulin à Vent. O protótipo atravessou grande parte do Atlântico, mas enfrentou ventos superiores a 50 nós próximo da costa americana e o equipamento acabou cedendo.
Cousteau não abandonou a ideia.
Usou o que havia aprendido para desenvolver uma embarcação especialmente concebida para aquela propulsão híbrida.
A Alcyone recebeu casco de alumínio e uma configuração também incomum: proa de monocasco e popa com características de catamarã. Dois motores diesel trabalhavam em conjunto com os Turbosails. Computadores administravam a relação entre as fontes de propulsão: quando havia vento suficiente, diminuía-se a participação dos motores; quando o vento enfraquecia, os motores assumiam automaticamente.
Era uma embarcação híbrida antes de “híbrido” se tornar uma palavra comum nas discussões sobre transporte.
Mas Cousteau não construiu a Alcyone apenas para provar uma teoria.
Ela foi trabalhar.
Participou de expedições no Atlântico, Pacífico, Índico, Mediterrâneo, Mar Vermelho, Alasca, Estreito de Bering, Austrália, Papua-Nova Guiné, Madagascar e diversas outras regiões. Tornou-se plataforma de pesquisa e companheira do Calypso em parte das expedições.
Décadas depois, aquela experiência parece ainda mais interessante.
A indústria marítima voltou a estudar seriamente a utilização do vento. Hoje encontramos rotores, asas rígidas, velas automatizadas e kites sendo instalados em navios mercantes para diminuir o consumo de combustível.
Ou seja, uma pergunta feita por Cousteau há mais de quarenta anos continua sobre a mesa dos engenheiros:
Se um navio já está cercado por vento durante praticamente toda a viagem, por que não aproveitar parte dessa energia?
A Alcyone talvez nunca tenha provocado a revolução comercial que Cousteau imaginava.
Mas continua sendo uma daquelas embarcações que envelheceram de maneira curiosa.
Quanto mais o mundo procura alternativas para reduzir o consumo de combustível dos navios, menos estranhas parecem aquelas duas enormes “chaminés” que não soltavam fumaça.
imagem: https://www.mauric.com/design/alcyone