
O Race for Water parece ter sido criado a partir de uma pergunta que qualquer comandante gostaria de responder afirmativamente:
E se uma embarcação pudesse produzir, durante a própria viagem, boa parte da energia de que necessita?
O catamarã de aproximadamente 35 metros começou sua história com outro nome: PlanetSolar. Entre 2010 e 2012 realizou a primeira circum-navegação mundial de uma embarcação movida a energia solar.
Mais tarde foi transformado em laboratório e demonstrador tecnológico da fundação suíça Race for Water.
E então ficou ainda mais interessante.
A enorme superfície superior recebeu cerca de 500 metros quadrados de painéis solares. A eletricidade alimentava dois motores de 60 kW e carregava baterias que permitiam continuar navegando quando o sol desaparecia.
Mas havia um problema conhecido de qualquer sistema solar: produzir energia é uma coisa; armazená-la durante muito tempo é outra.
A solução encontrada foi produzir hidrogênio a bordo.
Água do mar era captada e dessalinizada. Utilizando a eletricidade excedente dos painéis solares, um eletrolisador separava a água e produzia hidrogênio. Depois de purificado, o gás era comprimido a 350 bar e armazenado em 25 tanques. Quando necessário, células a combustível convertiam aquele hidrogênio novamente em eletricidade.
Ou seja, o oceano fornecia a água.
O sol fornecia a energia.
E o próprio barco produzia uma forma de armazená-la.
Ainda faltava alguma coisa.
Vento.
Um kite automatizado de 40 metros quadrados podia voar aproximadamente 150 metros à frente da embarcação e puxar suas cerca de 100 toneladas, diminuindo a necessidade de utilizar os motores elétricos.
Sol, hidrogênio e vento passaram assim a trabalhar juntos.
Entre 2017 e 2020, o Race for Water percorreu os oceanos durante mais de três anos, visitando 18 países e 24 escalas, levando pesquisadores e realizando trabalhos relacionados principalmente à poluição plástica dos oceanos.
Isso é importante porque transforma a embarcação em algo maior do que um exercício tecnológico.
As soluções estavam sendo testadas trabalhando.
O Race for Water precisava navegar, manter tripulantes e pesquisadores a bordo, receber visitantes, alimentar instrumentos científicos e cumprir missões reais. A tecnologia não estava numa bancada de laboratório. Estava exposta ao sal, às ondas, ao calor e às milhares de milhas de uma expedição oceânica.
Em 2021, a embarcação mudou novamente de mãos e passou a chamar-se Porrima, levando adiante outros projetos relacionados às energias renováveis.
Talvez nenhuma das tecnologias utilizadas isoladamente seja a resposta definitiva para a propulsão marítima do futuro.
E essa pode ser justamente a principal lição daquele estranho catamarã.
Durante dois séculos procuramos motores cada vez melhores e combustíveis capazes de mover embarcações cada vez maiores.
O Race for Water experimentou uma lógica diferente:
em vez de procurar uma única fonte perfeita de energia, aprender a aproveitar todas aquelas que o mar oferece durante a viagem.
imagem: https://www.boatnews.com/story/25662/race-for-water-a-5-year-expedition-to-clean-up-the-oceans