A navegação mundial já enfrenta falta de 39 mil oficiais certificados

por CCMM

Relatório da BIMCO e da International Chamber of Shipping mostra que o crescimento da frota está superando a formação de profissionais e que o setor precisará incorporar quase 23 mil novos oficiais por ano até 2030.

A escassez de oficiais da Marinha Mercante deixou de ser apenas uma projeção para o futuro. O Seafarer Workforce Report 2026, elaborado pela BIMCO e pela International Chamber of Shipping (ICS), estima que a navegação mundial já enfrenta um déficit de aproximadamente 39.100 oficiais certificados de acordo com a Convenção STCW. Ao mesmo tempo, há um excedente estimado de 56.890 profissionais de guarnição, evidenciando que o problema não está simplesmente na quantidade total de marítimos, mas na disponibilidade de pessoal qualificado para exercer funções de maior responsabilidade a bordo.

O levantamento calcula que cerca de 2,57 milhões de marítimos trabalham atualmente em 85.148 navios mercantes. Desse total, a oferta mundial de oficiais é estimada em pouco mais de 1,04 milhão de profissionais, número insuficiente para atender às necessidades da frota. Até 2030, o setor deverá demandar outros 113.735 oficiais, o que exigiria a entrada média de 22.747 novos profissionais por ano — crescimento anual aproximado de 2%.

O dado precisa ser interpretado com cuidado. Ele não significa que dezenas de milhares de navios estejam operando sem comandantes ou chefes de máquinas. Na prática, o mercado responde ao déficit com escalas mais apertadas, prolongamento de contratos, maior disputa entre empresas, recrutamento internacional e dificuldade para preencher determinadas funções. O sistema continua funcionando, mas com menor margem para absorver expansão da frota, aposentadorias, afastamentos e perda de profissionais para atividades em terra.

A falta também não se distribui igualmente entre todas as categorias. Historicamente, a indústria encontra maior dificuldade para recrutar oficiais de máquinas em nível de gestão e profissionais habilitados para embarcações especializadas, como navios-tanque de produtos químicos, transportadores de GNL e GLP e unidades que operam sistemas tecnologicamente mais complexos. A transição para combustíveis alternativos, propulsão híbrida, automação e operações digitais tende a tornar essa formação ainda mais exigente.

Há, portanto, uma aparente contradição. Enquanto se discute o avanço dos navios autônomos e da inteligência artificial, a navegação continua precisando de mais oficiais. A tecnologia pode reduzir tarefas repetitivas e alterar a composição das tripulações, mas também cria novas responsabilidades relacionadas à supervisão de sistemas, segurança cibernética, gestão de energia, análise de dados e operação de combustíveis com riscos específicos. O profissional não desaparece: sua qualificação se torna mais complexa.

Outro desafio está na retenção. Formar um oficial exige anos de educação, embarque supervisionado, certificação e experiência progressiva. Entretanto, condições de trabalho, longos períodos afastados da família, restrições ao desembarque, desgaste emocional e oportunidades em terra fazem com que parte desses profissionais abandone precocemente a carreira marítima. Assim, ampliar o ingresso nas escolas de formação, isoladamente, pode não resolver o problema se a indústria não conseguir tornar a profissão sustentável ao longo de décadas.

Para o Brasil, o relatório apresenta ao mesmo tempo um alerta e uma oportunidade. O país possui tradição de formação marítima, estrutura institucional consolidada e oficiais com experiência em navegação, cabotagem e offshore. No entanto, aproveitar a demanda internacional exige planejamento de longo prazo, capacidade suficiente de formação e praticagem a bordo, domínio do inglês técnico, atualização tecnológica e reconhecimento internacional das certificações e competências profissionais.

Também será necessário observar o crescimento dos grandes fornecedores de mão de obra marítima. A Índia, por exemplo, já representa cerca de 12,2% da força de trabalho embarcada mundial e passou a ocupar a segunda posição entre os países fornecedores de marítimos, atrás das Filipinas. Esse avanço não resulta apenas de uma grande população, mas de políticas de formação, aproximação com armadores internacionais e preparação voltada ao mercado global.

A escassez de 39 mil oficiais não é, portanto, apenas um problema dos departamentos de tripulação. Ela envolve segurança da navegação, continuidade do comércio mundial, qualidade da formação, condições de trabalho e capacidade de acompanhar a transformação tecnológica dos navios. A frota poderá crescer e se modernizar, mas continuará dependendo de pessoas capazes de assumir responsabilidade técnica e legal por sua operação.

O relatório da BIMCO e da ICS confirma uma realidade que o setor já começava a perceber: o navio do futuro talvez seja mais digital, eficiente e automatizado, porém a disponibilidade de oficiais qualificados continuará sendo uma das condições fundamentais para que ele possa navegar.

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Imagem: Gildo Pires

Categoria editorial: Pessoas, Formação & Vida no Mar

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