Lloyd Brasileiro: uma companhia que ajudou a formar a Marinha Mercante nacional

por CCMM

Durante mais de um século, poucas empresas estiveram tão ligadas à história da navegação comercial brasileira quanto o Lloyd Brasileiro. Seus navios transportaram passageiros, cargas, correspondência e produtos entre portos nacionais e estrangeiros, mas a importância da companhia foi além da operação de linhas marítimas. O Lloyd também funcionou como escola profissional, espaço de formação de oficiais e tripulantes e uma das referências mais conhecidas da própria Marinha Mercante brasileira.

Sua criação remonta aos primeiros meses da República. Em 19 de fevereiro de 1890, o Decreto nº 208 autorizou a organização do Lloyd Brasileiro por meio da reunião de companhias de navegação subvencionadas pelo Estado. O projeto envolveu nomes como o Barão de Jaceguai, Antonio Paulo de Mello Barreto e Manoel José da Fonseca e tinha objetivos que ultrapassavam a atividade comercial. O próprio decreto mencionava a utilidade de uma grande frota mercante como apoio à defesa marítima e como auxiliar da Armada em caso de guerra.

Poucos meses depois, em outubro daquele ano, um novo decreto regulamentou as linhas operadas pela companhia. O Lloyd nasceu da incorporação de empresas que já mantinham serviços costeiros, fluviais e internacionais, entre elas a Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, a Companhia Nacional de Navegação a Vapor e outras organizações que ligavam diferentes regiões do território brasileiro.

Essa estrutura tinha importância especial em um país de dimensões continentais e com uma rede terrestre ainda limitada. Para muitas cidades, o navio era um dos principais meios de ligação com outras regiões. O Lloyd, portanto, ajudava a conectar portos do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, enquanto algumas de suas linhas avançavam também para outros países da América e para a Europa.

No início de sua organização, a companhia dispunha de 27 navios, segundo levantamento histórico do Ipea. Ao longo das décadas seguintes, porém, sua frota cresceria e passaria por sucessivos processos de incorporação, renovação e reorganização.

A trajetória não foi financeiramente tranquila. Estudos acadêmicos mostram que o Lloyd atravessou diferentes períodos de crise, reestruturação e crescente intervenção estatal. Entre 1890 e 1913, funcionou sob gestão privada fortemente vinculada ao poder público; depois caminhou progressivamente para maior centralização estatal, até transformar-se efetivamente em patrimônio nacional.

Apesar dessas dificuldades, sua dimensão operacional cresceu. Em 1931, o Lloyd já possuía uma frota expressiva e figurava entre as grandes companhias de navegação de seu período. A empresa tornou-se uma presença familiar nos portos brasileiros, com vapores de passageiros, cargueiros e navios destinados a diferentes serviços.

Mas talvez uma de suas contribuições mais profundas tenha acontecido longe das estatísticas de tonelagem.

Para milhares de marítimos, o Lloyd Brasileiro foi local de trabalho e também de aprendizado.

A vida profissional de muitos comandantes, oficiais de Náutica, oficiais de Máquinas, radiotelegrafistas, comissários e tripulantes esteve ligada à companhia. Em uma época em que grande parte da formação profissional acontecia diretamente a bordo, os navios funcionavam também como ambientes de transmissão de conhecimento entre gerações.

O jovem oficial aprendia com profissionais mais antigos. Conhecia diferentes portos, enfrentava condições meteorológicas variadas, participava de operações de carga e descarga e adquiria experiência em viagens costeiras e oceânicas. Aos poucos, aquele conhecimento prático se somava à formação técnica e construía uma carreira marítima.

Essa relação entre o Lloyd e a formação profissional tornou-se institucional em 1939, com a criação da Escola de Marinha Mercante do Lloyd Brasileiro, no Rio de Janeiro. A escola utilizaria inclusive o cargueiro Alegrete como navio-escola, aproximando diretamente a preparação acadêmica da realidade da navegação.

Por isso, quando se fala na história da formação dos oficiais brasileiros, é difícil separar completamente o ensino marítimo da história da companhia.

A Segunda Guerra Mundial marcou outro capítulo importante.

Navios mercantes brasileiros passaram a navegar em um Atlântico cada vez mais perigoso, e embarcações ligadas ao Lloyd estiveram entre as vítimas da guerra submarina. O Baependi, torpedeado pelo U-507 em agosto de 1942, tornou-se um dos símbolos mais trágicos daquele período. A perda de navios e de centenas de vidas mostrou novamente que uma frota mercante não era apenas instrumento econômico, mas também parte estratégica da capacidade marítima de um país.

Depois da guerra, o Lloyd recebeu e operou novas embarcações e participou dos esforços de reconstrução e expansão da navegação brasileira. Durante a industrialização das décadas seguintes, a companhia manteve participação importante nas linhas internacionais e de cabotagem, transportando uma enorme variedade de produtos e acompanhando o crescimento do comércio exterior brasileiro.

Seus navios também se tornaram parte da memória visual dos portos.

Durante décadas, a presença do nome Lloyd Brasileiro nos costados e a marca da empresa nas chaminés eram familiares para quem trabalhava ou frequentava cais como os do Rio de Janeiro e de Santos. Para muitas famílias de marítimos, esses navios estavam associados a longos períodos de embarque, despedidas, regressos e histórias trazidas de diferentes partes do mundo.

A partir da segunda metade do século XX, entretanto, o ambiente da navegação internacional começou a mudar rapidamente.

A conteinerização alterou o desenho dos navios e dos portos. As companhias passaram a operar em escalas cada vez maiores, novas formas de financiamento tornaram-se necessárias e a competição internacional se intensificou. O Lloyd precisou tentar acompanhar uma indústria em transformação ao mesmo tempo em que carregava dificuldades administrativas e financeiras acumuladas ao longo de sua história.

A empresa também passou por nova reorganização jurídica. Em 1966, foi constituída a Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, posteriormente conhecida como Lloydbrás, sob a forma de sociedade de economia mista. Décadas depois, já em processo de liquidação, sua extinção foi determinada pela Medida Provisória nº 1.592, de 15 de outubro de 1997.

Terminava institucionalmente uma companhia cuja história havia acompanhado praticamente todo o século XX brasileiro.

Mas uma empresa marítima dessa dimensão não desaparece inteiramente quando encerra suas atividades.

Ela permanece nos navios fotografados nos portos, nos documentos de bordo, nos anúncios de antigas linhas, nas carteiras profissionais e, principalmente, na memória daqueles que navegaram em sua frota.

Entre antigos marítimos, ainda é possível ouvir referências a determinado navio do Lloyd, a uma viagem, a um comandante ou a uma escala realizada décadas atrás. Essas lembranças formam uma história paralela àquela registrada nos documentos oficiais, porque revelam a companhia pelo olhar de quem efetivamente viveu a bordo.

Há também uma dimensão nacional importante.

Durante diferentes períodos, o Lloyd representou a tentativa brasileira de manter uma presença própria nas grandes rotas comerciais marítimas. Seus navios levavam a bandeira brasileira a portos estrangeiros e ajudavam a assegurar que parte do transporte do comércio nacional fosse realizada por uma frota vinculada ao próprio país.

Por isso, sua história não deve ser observada apenas pelo resultado financeiro de seus balanços ou pelas dificuldades de gestão que enfrentou.

O Lloyd foi também uma estrutura de formação profissional, uma presença constante nos portos, um instrumento de integração territorial e uma das principais escolas práticas de várias gerações da Marinha Mercante.

Hoje, quando fotografias antigas mostram um de seus navios entrando na Baía de Guanabara ou atracado em Santos, elas registram mais do que uma embarcação desaparecida.

Registram uma época em que o nome Lloyd Brasileiro fazia parte da vida cotidiana de milhares de marítimos e ajudava a representar, dentro e fora do país, a própria existência de uma Marinha Mercante brasileira.

imagem: pt.wikipedia.org

Voce também pode gostar