
Um oficial que aprendeu navegação antes do GPS pode hoje dividir o passadiço com outro que nunca conheceu profissionalmente um mundo sem cartas eletrônicas. Os dois pertencem à mesma profissão, mas chegaram a ela por caminhos tecnológicos completamente diferentes.
Essa convivência talvez seja uma das riquezas menos percebidas da Marinha Mercante.
O profissional mais antigo acumulou experiências que nenhum simulador consegue reproduzir integralmente. Viveu situações reais, observou mudanças de tempo, falhas de equipamentos, operações difíceis e decisões cujas consequências não podiam ser reiniciadas pressionando um botão.
O mais jovem, por outro lado, chega ao navio familiarizado com interfaces digitais, automação, integração de informações e uma velocidade de aprendizado tecnológico que pode surpreender quem iniciou a carreira décadas antes.
Seria um erro transformar essa diferença numa disputa entre experiência e tecnologia.
O melhor passadiço é justamente aquele em que as duas coisas se encontram.
Experiência sem atualização pode transformar conhecimento acumulado em resistência à mudança. Tecnologia sem experiência pode produzir confiança excessiva na informação apresentada por uma tela. O profissional completo precisa compreender o equipamento, mas também precisa saber desconfiar dele quando aquilo que vê não combina com aquilo que o mar está mostrando.
A transmissão de conhecimento a bordo também não acontece apenas em cursos formais. Uma explicação durante um quarto de serviço, a discussão de uma manobra depois de concluída ou a maneira pela qual um comandante experiente interpreta determinada situação fazem parte de uma formação profissional que dificilmente aparece em certificados.
O movimento contrário também existe. Jovens oficiais podem ajudar profissionais mais antigos a explorar recursos de sistemas recém-instalados e novas ferramentas digitais. Quando existe respeito entre as gerações, ensinar deixa de ser uma relação de mão única.
A Marinha Mercante sempre viveu mudanças tecnológicas. O sextante conviveu com sistemas eletrônicos, a carta de papel cedeu espaço ao ECDIS, máquinas passaram a incorporar níveis crescentes de automação e comunicações que antes dependiam de procedimentos demorados tornaram-se quase instantâneas.
O equipamento muda.
A necessidade de julgamento profissional permanece.
Talvez por isso um dos melhores lugares para formar um marítimo continue sendo aquele em que um profissional que já viu muito ainda consegue dizer “olhe isto” para alguém que está começando, enquanto o mais jovem também se sente suficientemente respeitado para responder “há uma maneira nova de fazer”.
imagem: www.defesaemfoco.com.br
Categoria: 7.Pessoas, Formação & Vida no Mar