Propulsão nuclear retorna ao debate sobre o futuro dos navios mercantes

por CCMM

Novos reatores modulares renovam o interesse da indústria, mas regulação, custos, segurança e aceitação portuária ainda limitam sua aplicação comercial.

A propulsão nuclear permanece em uso há décadas em submarinos, porta-aviões e quebra-gelos, mas praticamente desapareceu da navegação mercante. Agora, a pressão para reduzir emissões e a dificuldade de produzir combustíveis marítimos de baixo carbono em grande escala estão levando projetistas, classificadoras e empresas de tecnologia a reexaminar essa alternativa.

Os primeiros projetos civis, como o norte-americano Savannah, o alemão Otto Hahn e o japonês Mutsu, demonstraram que um navio mercante podia utilizar energia nuclear. Entretanto, os custos, as exigências de segurança, as restrições de acesso aos portos e a ausência de um modelo comercial competitivo impediram sua disseminação. Nenhum novo navio nuclear comercial civil foi comissionado nas últimas quatro décadas.

A diferença atual está no desenvolvimento de reatores menores e modulares. Alguns conceitos empregam sistemas passivos de segurança, baixa pressão e longos intervalos entre reabastecimentos. A proposta é produzir unidades padronizadas em série, instalá-las no navio como módulos e reduzir a necessidade de grandes equipes nucleares embarcadas.

Um navio assim poderia operar durante anos sem abastecimento convencional e praticamente sem emitir dióxido de carbono durante a geração de energia a bordo. Também seria possível navegar em velocidades mais altas sem que o consumo de combustível tornasse a operação proibitiva.

Essas vantagens não resolvem os principais obstáculos. Um reator marítimo precisa suportar movimentos, vibrações, colisões, incêndios, encalhes e condições ambientais severas. Além disso, o sistema deverá permanecer seguro durante manutenção, docagem e eventual desmontagem do navio.

O ciclo do combustível representa outro desafio. Será necessário estabelecer responsabilidades sobre fabricação, transporte, carregamento, retirada, armazenamento e destinação final do material utilizado. Estaleiros e instalações de reparo também precisarão de licenças, profissionais e áreas adequadas.

A regulação envolverá instituições que normalmente atuam em universos separados. Organização Marítima Internacional, Agência Internacional de Energia Atômica, Estados de bandeira, autoridades nucleares nacionais, portos e sociedades classificadoras precisarão construir procedimentos compatíveis.

A aceitação portuária talvez seja tão importante quanto a aprovação do navio. Uma embarcação comercial só será operacionalmente viável se puder entrar nos portos previstos em sua rota. Mesmo com sistemas tecnicamente seguros, governos e comunidades poderão impor limitações por razões ambientais, políticas ou de percepção de risco.

A DNV estima que a padronização e a produção modular poderão melhorar a viabilidade econômica. Em um estudo aplicado a um porta-contêineres de 15 mil TEUs, a classificadora avaliou que os custos dos reatores precisariam cair significativamente para competir com a propulsão convencional, dependendo do preço futuro dos combustíveis e das penalidades sobre emissões.

A energia nuclear não deve ser apresentada como solução imediata. Ainda faltam normas, projetos comerciais, infraestrutura e aceitação pública. Contudo, o fato de voltar a ser estudada mostra a dimensão do problema energético enfrentado pela navegação.

Mais do que anunciar o navio nuclear do futuro, a indústria começa a perguntar em quais condições ele poderia ser construído, licenciado, operado e recebido pelos portos. É nesse conjunto de respostas — e não apenas no reator — que estará sua eventual viabilidade.

imagem: thumb.wikimedia.org

Categoria editorial: 3.Indústria Naval & Tecnologia

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