
A Organização Marítima Internacional (IMO) concluiu, em setembro, a revisão das orientações para a preparação do Manual de Peação de Carga, documento que reúne os procedimentos aprovados para a estivagem e a fixação das cargas a bordo. A revisão inclui um padrão de desempenho harmonizado para os programas usados no cálculo da amarração. Com isso, o software passa a ser reconhecido como ferramenta complementar ao manual no planejamento da segurança da carga.
Na prática, esse tipo de programa ajuda a avaliar se os dispositivos de peação previstos para determinada carga e configuração atendem aos limites de segurança aplicáveis. Em um navio porta-contêineres, por exemplo, o cálculo considera o arranjo da carga e os elementos usados para mantê-la segura durante a viagem e uma ferramenta como essa pode organizar e verificar combinações de dados que seriam trabalhosas de analisar manualmente, mas o resultado depende da qualidade das informações inseridas e de sua correspondência com a situação real a bordo.
O ponto central das novas orientações é justamente estabelecer critérios comuns para esses sistemas. A proposta discutida na IMO prevê que o software apoie a avaliação das condições reais de carregamento e complemente o Manual de Peação aprovado e o manual continua sendo a referência formal para os procedimentos do navio; o programa não o substitui.
A revisão foi concluída pelo Subcomitê de Transporte de Cargas e Contêineres da IMO, mas ainda deve seguir para análise do Comitê de Segurança Marítima. A expectativa é que o texto seja submetido ao MSC 113, previsto para junho de 2027 e, portanto, a conclusão do trabalho no subcomitê representa um avanço importante, mas não significa que as orientações já estejam em vigor como uma nova exigência internacional.
O tema também aproxima a digitalização de uma atividade muito concreta da navegação. O planejamento da peação começa antes da partida, mas seus efeitos acompanham a carga durante toda a viagem e, nesse processo, o cálculo feito em terra ou a bordo precisa conversar com o plano aprovado, com os equipamentos disponíveis e com a configuração efetivamente utilizada no navio.
Para a Marinha Mercante brasileira, a mudança traz uma reflexão sobre a relação entre tecnologia e experiência profissional. À medida que programas de cálculo ganham espaço, cresce também o valor de saber interpretar seus resultados, reconhecer os dados que alimentam a análise e compreender os limites da ferramenta. O software pode tornar o planejamento mais consistente, mas a segurança continua ligada à integração entre procedimento, equipamento e decisão humana.
A decisão da IMO não transforma a peação em uma atividade automatizada. Ela procura dar uma base comum para que os cálculos digitais possam ser usados como apoio ao manual de bordo.
Para quem acompanha a segurança da navegação, fica uma questão prática: como incorporar essas ferramentas à rotina sem perder de vista aquilo que elas precisam representar, a condição real da carga e do navio durante a viagem?
imagem: techcon.eng.br
Categoria: Indústria Naval & Tecnologia