
Uma instituição que atravessa décadas não é construída apenas por estatutos, sedes, diretorias ou documentos. Ela é construída sobretudo pelas pessoas que, em diferentes momentos, decidiram dedicar parte de sua experiência profissional e de seu tempo à preservação de uma causa comum. No Centro dos Capitães da Marinha Mercante, essa história começou em 1933 e foi sendo escrita por sucessivas gerações de comandantes e associados. Registros institucionais posteriores continuam identificando 19 de outubro de 1933 como a data de fundação do CCMM.
Olhar para os antigos associados é, portanto, uma maneira de compreender a própria formação do Centro. Alguns ocuparam cargos de direção, outros produziram textos, organizaram encontros, proferiram palestras, representaram a entidade perante instituições marítimas ou simplesmente mantiveram uma presença constante nas atividades associativas. Nem sempre seus nomes aparecem com a mesma frequência nos registros disponíveis, mas a soma dessas participações permitiu que o CCMM permanecesse ativo por gerações.
Há documentos que ajudam a perceber quão antiga é essa continuidade. Em dezembro de 1934, pouco mais de um ano depois da fundação do Centro, o jornal O Radical registrava a atuação do então Sindicato Nacional do Centro dos Capitães da Marinha Mercante e identificava Jonathas Augusto de Oliveira como seu presidente. O registro mostra que a entidade já buscava naquele momento espaço público para representar os interesses e divulgar as atividades dos comandantes da Marinha Mercante.
Décadas mais tarde, outros documentos pessoais ajudam a reconstruir essa história por um ângulo diferente. O acervo da família do CLC Eduardo Veiga de Mattos, por exemplo, preserva um título de sócio proprietário nº 15 do Centro dos Capitães, datado de 1969. Mais do que uma curiosidade documental, peças como essa revelam uma relação de pertencimento que acompanhava muitos comandantes durante boa parte de suas carreiras.
A memória institucional também foi preservada pela escrita. O CLC Alberto Pereira de Aquino tornou-se um exemplo expressivo dessa tradição. Durante anos, seus textos abordaram navegação, cartografia e acontecimentos da história marítima, aparecendo em publicações do próprio Centro, como O Sextante. Sua contribuição ultrapassou os periódicos do CCMM. A Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha registra a publicação de sua obra História da Marinha Mercante Brasileira, em dois volumes, apresentada pelo próprio Centro dos Capitães e dedicada à trajetória da frota mercante nacional desde a Independência.
Outros comandantes contribuíram mantendo vivo o intercâmbio de conhecimento profissional. Em edição de O Sextante de 2017, por exemplo, aparecem simultaneamente uma palestra do CLC Francisco César Monteiro Gondar sobre práticas de documentação de bordo e um texto histórico do CLC Alberto Pereira de Aquino. A mesma publicação registra ainda o tradicional almoço mensal do Centro. Em poucas páginas, encontram-se três dimensões que ajudam a explicar a longevidade da entidade: conhecimento, memória e convivência entre os associados.
Essa transmissão de experiência também ultrapassou as paredes do CCMM. Em 2010, registro da Revista Marítima Brasileira mencionava os CLCs Francisco César Monteiro Gondar e Roberto Luiz do Nascimento entre os primeiros capitães de longo curso indicados pelo Centro para receberem o distintivo de Comodoro, numa cerimônia dedicada também à valorização da memória da Marinha Mercante.
O relacionamento com as novas gerações tornou-se outro elemento recorrente. Em 2023, alunos da EFOMM do CIABA visitaram o Centro e foram recebidos pelos CLCs Francisco César Monteiro Gondar e Hildelene Lobato Bahia. Segundo o registro da visita, os futuros oficiais puderam ouvir experiências daqueles que haviam passado boa parte da vida profissional nos oceanos e conhecer os objetivos do Centro.
Essa imagem talvez resuma uma parte importante da razão de existir de uma entidade como o CCMM. De um lado, estão profissionais jovens, começando uma carreira. Do outro, comandantes que acumularam décadas de navegação e uma quantidade de conhecimento que dificilmente cabe apenas em livros ou regulamentos. Entre eles está a instituição, funcionando como ponto de encontro entre a experiência acumulada e aqueles que irão continuar a profissão.
Os antigos veículos de comunicação do Centro cumprem papel semelhante. Publicações como o Diário de Bordo, a Revista Eletrônica e posteriormente O Sextante registraram acontecimentos que, vistos isoladamente, poderiam parecer corriqueiros: almoços, palestras, homenagens, visitas, artigos técnicos e encontros entre associados. Reunidos ao longo dos anos, porém, esses registros formam uma documentação valiosa sobre a própria comunidade da Marinha Mercante. O material preservado pelo CCMM identifica, por exemplo, antigos boletins e o Diário de Bordo entre os veículos que registraram essa memória.
É também nesses documentos que reaparecem nomes que atravessaram diferentes períodos do Centro. Alguns tiveram grande projeção pública, outros permaneceram mais ligados ao cotidiano da entidade. Em comum, ajudaram a manter uma estrutura associativa capaz de sobreviver às profundas transformações sofridas pela Marinha Mercante brasileira.
Desde 1933, o setor viu desaparecer companhias tradicionais, mudar o perfil da frota, surgir novas tecnologias, transformar-se a legislação e alterar-se profundamente a vida a bordo. O próprio Centro precisou acompanhar essas mudanças. Ainda assim, seus objetivos continuam associados à valorização do comandante, ao intercâmbio de informações, à segurança marítima, à educação náutica, ao aprimoramento profissional e à preservação de uma Marinha Mercante forte.
Por isso, preservar os nomes, fotografias, documentos e relatos dos antigos associados não significa olhar apenas para o passado. Significa impedir que desapareça uma parte da experiência profissional acumulada pela Marinha Mercante brasileira.
Há uma diferença importante entre possuir arquivos e possuir memória. Arquivos guardam documentos. A memória surge quando esses documentos voltam a ser vistos, contextualizados, relacionados a pessoas e apresentados às novas gerações.
O Centro dos Capitães aproxima-se de um século de existência levando consigo essa responsabilidade. Muitos daqueles que ajudaram a construí-lo já não estão presentes nos encontros ou nas fotografias atuais, mas permanecem nos livros, boletins, atas, artigos, títulos de associados e histórias contadas por seus companheiros.
Recuperar essas trajetórias é também uma forma de compreender que o CCMM não começou com nenhuma das gerações que hoje o dirigem e tampouco terminará com elas. Cada período recebeu uma instituição construída por quem veio antes e terá, por sua vez, a responsabilidade de entregá-la aos que virão depois.
É assim que se constrói uma tradição marítima: uma geração passando o conhecimento, a experiência e a memória para a seguinte.
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