
Um navio não precisa ser atingido para que uma guerra altere o custo de sua viagem. Basta que a rota passe a ser considerada mais perigosa para que seguros, contratos e decisões comerciais comecem a mudar.
A Índia está tentando reduzir parte dessa exposição com uma estrutura própria de seguros marítimos. O Bharat Maritime Insurance Pool, criado neste ano, passou a oferecer cobertura para riscos de guerra envolvendo navios e cargas, em uma iniciativa que também procura diminuir a dependência do mercado segurador internacional.
Segundo dados divulgados nesta semana, a estrutura já emitiu cerca de três mil apólices para riscos de guerra relacionados a cargas, além de 92 coberturas Hull War Risk e três apólices de Protection & Indemnity.
O movimento acontece em um momento no qual conflitos e ataques contra a navegação mercante voltaram a colocar o seguro marítimo no centro das decisões operacionais.
Para um armador, navegar por uma região considerada de maior risco pode envolver pagamento adicional de prêmio, comunicação prévia ao segurador e adoção de medidas específicas de segurança. Dependendo do cenário, o custo adicional pode influenciar até a decisão sobre manter ou alterar determinada rota.
O seguro de risco de guerra cobre situações que normalmente não fazem parte das coberturas marítimas convencionais ou que recebem tratamento específico, como determinados danos decorrentes de guerra, hostilidades e outros eventos definidos contratualmente.
Já o Protection & Indemnity, conhecido mundialmente pela sigla P&I, atua em outra dimensão da atividade marítima, cobrindo diferentes responsabilidades do armador perante terceiros, de acordo com as condições contratadas.
A Índia historicamente depende de estruturas internacionais importantes para parte dessas coberturas. Ao desenvolver capacidade doméstica, o país tenta manter parcela maior dessa atividade financeira dentro de sua própria economia e construir experiência em subscrição, análise de risco e processamento de sinistros marítimos.
O Bharat Maritime Insurance Pool começou a operar comercialmente em maio de 2026. Em julho, foi emitida a primeira apólice indiana de P&I dentro da nova estrutura para a Shipping Corporation of India. Também foram emitidas coberturas de guerra para casco e máquinas e para cargas destinadas à indústria.
A iniciativa mostra como a infraestrutura necessária ao transporte marítimo não termina em navios e portos.
Para que uma carga atravesse oceanos, existe uma estrutura financeira que permite distribuir riscos capazes de alcançar valores muito superiores ao preço do próprio frete. Navio, carga, responsabilidade civil, poluição e conflitos podem envolver diferentes formas de proteção.
Quando uma região marítima entra em situação de conflito, essa engrenagem fica mais visível.
O risco começa no mar, passa pela mesa do segurador e pode terminar incorporado ao custo da mercadoria.
Ao criar uma capacidade própria para absorver parte desse risco, a Índia transforma seguro marítimo também em instrumento de sua estratégia para ampliar presença no shipping internacional.
imagem: www.iodglobal.com
Categoria: 5.Economia, Mercados & Comércio Marítimo