A Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro e a formação de gerações de oficiais

por CCMM_gp

A história da formação dos oficiais da Marinha Mercante brasileira não começou em um único prédio nem seguiu uma linha simples. Ela foi construída aos poucos, acompanhando o crescimento da navegação nacional, as necessidades da frota, as mudanças tecnológicas e a própria transformação do país. No Rio de Janeiro, essa trajetória ganhou uma importância particular, porque dali saíram gerações de profissionais que depois assumiriam responsabilidades em navios, empresas, portos e instituições ligadas ao setor marítimo.

Os primeiros esforços organizados para formar pessoal da Marinha Mercante no Brasil remontam ao final do século XIX. Em 1892, foram criados em Belém a Escola de Maquinistas e o Curso de Náutica, depois reunidos na Escola de Marinha Mercante do Pará. No Rio de Janeiro, porém, a formação ganhou estrutura própria nas décadas seguintes. A legislação federal de 1928 já definia uma Escola de Marinha Mercante destinada a preparar capitães, pilotos, maquinistas, motoristas e comissários.

Essa primeira experiência carioca atravessou mudanças importantes. Em 1934, uma reforma do Ensino Profissional Marítimo transferiu novamente parte da formação e dos exames para a estrutura naval, interrompendo aquele modelo. Poucos anos depois, entretanto, a necessidade de preparar profissionais para uma Marinha Mercante em expansão voltaria a exigir uma solução mais estruturada.

Foi nesse contexto que, em 10 de novembro de 1939, surgiu a Escola de Marinha Mercante do Lloyd Brasileiro, criada por decreto e instalada inicialmente em dependências da própria companhia, no centro do Rio de Janeiro. Seu primeiro diretor foi o Almirante Graça Aranha, então também dirigente do Lloyd Brasileiro.

A escola tinha uma característica que hoje chama especialmente a atenção. Parte da formação prática estava ligada ao navio-escola Alegrete, um cargueiro em tráfego normal adaptado para receber salas de aula. A imagem ajuda a entender a filosofia daquele ensino: formar profissionais para o mar significava colocá-los, desde cedo, em contato com o ambiente real de um navio mercante.

Com o crescimento da frota e do número de alunos, essa estrutura se tornou insuficiente. Em 1956, a antiga escola foi extinta e deu lugar à Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro, agora vinculada ao Ministério da Marinha e instalada em sede própria na Avenida Brasil, número 9020. A instituição começou com capacidade para formar aproximadamente 80 oficiais por ano nos cursos de Náutica, Máquinas e Câmara.

O regulamento daquele mesmo ano ajuda a compreender o que se esperava de um futuro oficial. A escola deveria não apenas transmitir conhecimentos técnicos, mas selecionar e formar alunos considerados aptos ao oficialato, levando em conta instrução, preparo físico, caráter e vocação para a vida no mar. Era, portanto, uma formação que combinava ensino acadêmico, disciplina e preparação profissional.

Essa combinação marcou profundamente muitas gerações. Para quem ingressava na escola, o aprendizado ia além das matérias técnicas. A formação também significava adaptação a regras, horários, uniformes, hierarquia e convivência intensa com colegas que, poucos anos depois, estariam espalhados por navios e rotas diferentes.

A própria Marinha Mercante brasileira passava por um período de transformação. A expansão planejada da frota, sobretudo a partir da década de 1960, mostrou que o país precisaria formar mais profissionais e atualizar continuamente aqueles que já estavam embarcados. Um levantamento nacional realizado no final daquela década buscou conhecer a distribuição e a qualificação dos marítimos, servindo de base para novos planos de formação.

Dessa necessidade surgiu uma mudança decisiva. Em 12 de janeiro de 1971, o Decreto nº 68.042 criou o Centro de Instrução Almirante Graça Aranha, o CIAGA, incorporando a Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro. O novo centro passou a ter missão mais ampla, envolvendo formação, aperfeiçoamento e adestramento de diferentes categorias profissionais ligadas à Marinha Mercante.

A antiga escola, portanto, não desapareceu simplesmente. Sua experiência foi absorvida e ampliada por uma estrutura capaz de acompanhar uma atividade marítima cada vez mais complexa. O CIAGA consolidou-se nas décadas seguintes como referência do Ensino Profissional Marítimo, ministrando cursos de formação, aperfeiçoamento, atualização e especialização.

Dentro dele, a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, a EFOMM, preservou a missão de preparar oficiais de Náutica e de Máquinas. Atualmente, a formação combina período acadêmico, atividades em laboratórios e simuladores e estágio embarcado, mantendo uma característica que atravessa praticamente toda essa história: um oficial mercante não pode ser formado apenas dentro de uma sala de aula.

Muitas coisas mudaram. Os instrumentos de navegação tornaram-se eletrônicos, as máquinas passaram por sucessivas revoluções tecnológicas, os navios cresceram, novas normas internacionais surgiram e a própria composição das turmas se transformou. A presença feminina na formação de oficiais, hoje plenamente integrada à realidade da Escola, é um exemplo importante dessa evolução.

Apesar disso, há uma linha de continuidade entre o aluno que estudava nas dependências do Lloyd Brasileiro, aquele que embarcava no Alegrete, os jovens que chegaram à nova escola da Avenida Brasil em 1956 e as gerações que atualmente passam pela EFOMM.

Todos fazem parte da mesma história de formação profissional voltada para uma atividade em que conhecimento técnico precisa caminhar ao lado da responsabilidade.

Para muitos comandantes e oficiais brasileiros, lembrar da Escola de Marinha Mercante significa também lembrar dos primeiros anos de uma vida inteira ligada ao mar. São recordações de professores, turmas, exercícios, instruções, amizades e expectativas que só seriam plenamente compreendidas depois do primeiro embarque.

É justamente nesse ponto que a história da Escola ultrapassa os edifícios e os decretos. Sua verdadeira dimensão está nas pessoas que passaram por suas salas de aula e depois levaram aquele conhecimento para os navios.

Ao longo de décadas, mudaram os nomes das instituições, os currículos e as tecnologias. Mas permaneceu o propósito essencial: preparar homens e mulheres para assumir a responsabilidade de conduzir a Marinha Mercante brasileira pelos mares do mundo.

imagem: https://www.marinha.mil.br/

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