
O Estreito de Ormuz atravessa mais um período de forte restrição à navegação comercial. Dados preliminares de rastreamento divulgados nesta sexta-feira, 25 de setembro, indicam que nove navios transportando commodities cruzaram a passagem na quinta-feira. O movimento mostra alguma recuperação em relação ao início da semana, mas permanece muito distante da rotina que caracterizava uma das principais rotas marítimas do planeta.
Antes do início do atual conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, cerca de 125 grandes navios comerciais atravessavam diariamente o estreito, considerando petroleiros, gaseiros, graneleiros e porta-contêineres. A diferença ajuda a dimensionar o impacto da situação atual sobre a navegação internacional.
A importância de Ormuz vai muito além de sua reduzida largura geográfica. A passagem liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico e constitui uma das principais artérias marítimas para o transporte mundial de petróleo e gás. Qualquer alteração prolongada na circulação de navios nessa área acaba chegando aos mercados de energia, aos seguros marítimos, aos fretes e ao planejamento das companhias de navegação.
Mesmo com o tráfego reduzido, o petróleo continua atravessando a região. Dados divulgados nesta sexta-feira apontam que aproximadamente 33,7 milhões de barris de petróleo bruto passaram por Ormuz desde o início da semana de 20 de setembro, mostrando que a rota continua operacional, embora em condições muito diferentes das observadas antes do conflito.
O problema mais grave, porém, está na segurança dos navios e de suas tripulações. A Organização Marítima Internacional registrava, até 24 de setembro, 85 incidentes confirmados envolvendo embarcações no Estreito de Ormuz e em áreas próximas do Oriente Médio. Somente neste mês, diferentes navios mercantes foram atingidos, alguns com mortos, feridos, desaparecidos, incêndios e danos às embarcações.
Entre os casos mais recentes está o Cape Dao, atingido em 23 de setembro nas proximidades de Khasab, em Omã. Segundo a IMO, a embarcação sofreu danos e um marítimo morreu. Dois dias antes, o LR Stephanie também foi atingido no Estreito de Ormuz, deixando dois marítimos feridos.
Nesse ambiente, a decisão de atravessar Ormuz deixou de ser apenas uma questão de programação comercial. Armadores, comandantes e operadores precisam avaliar informações de segurança praticamente em tempo real, além das condições de seguro, disponibilidade de tripulação, orientações das autoridades marítimas e exposição de cada embarcação ao risco.
A consequência aparece diretamente no movimento observado nos últimos dias. Na segunda-feira, apenas dois navios de commodities foram identificados atravessando o estreito. Na terça-feira foram sete, na quarta-feira dez e, na quinta-feira, nove. Os números podem não incluir embarcações navegando com o AIS desligado por razões de segurança, uma limitação importante na interpretação dos dados.
A situação de Ormuz também recoloca o marítimo no centro de uma discussão que muitas vezes fica escondida atrás dos números do petróleo. São comandantes, oficiais e tripulantes que continuam operando os navios quando uma rota comercial passa a atravessar uma área de conflito.
Por isso, acompanhar Ormuz significa observar muito mais do que o preço do barril. O que acontece naquele estreito envolve liberdade e segurança da navegação, abastecimento energético, comércio internacional e, sobretudo, a proteção dos profissionais responsáveis por manter os navios em movimento.
imagem: th-i.thgim.com/public/
Categoria: 8.Mundo Marítimo & Geoestratégia