
Alguns profissionais deixam sua marca pelos navios que comandaram. Outros permanecem pela quantidade de pessoas que ajudaram a formar.
O Capitão de Longo Curso Carlos Rubens Caminha Gomes pertence ao segundo grupo.
Nascido em Belém, no Pará, em 17 de maio de 1936, Carlos Rubens fez parte de uma geração para a qual a formação marítima brasileira estava passando por profundas transformações. Graduou-se em Ciências Náuticas em 1955 pela então Escola de Marinha Mercante do Pará, instituição que daria origem ao atual Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, o CIABA.
Era Oficial de Náutica.
Mas sua história acabaria ultrapassando o passadiço.
Carlos Rubens construiu uma longa carreira ligada ao ensino profissional marítimo. Em 1973, depois de realizar o curso de aperfeiçoamento correspondente no Centro de Instrução Almirante Graça Aranha, no Rio de Janeiro, alcançou a categoria de Capitão de Longo Curso.
Chegar a CLC representava alcançar o topo da carreira de Náutica.
Carlos Rubens, porém, transformaria o conhecimento necessário para chegar até lá em matéria-prima para formar outros oficiais.
Professor da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, dedicou-se especialmente ao ensino e à produção de literatura técnica. Entre suas obras está “Arqueação da Carga: Draft Survey”, publicada em 1986. O trabalho ganhou projeção suficiente para ser posteriormente traduzido para o francês e para o holandês pelo comandante belga Otto Schreuders.
Para quem não pertence ao meio marítimo, o assunto pode parecer excessivamente técnico.
Não é.
O draft survey permite determinar, a partir dos calados e de outros parâmetros do navio, a quantidade de carga embarcada ou desembarcada. Em determinadas operações com granéis, essa diferença calculada representa toneladas de mercadoria e, consequentemente, valores comerciais importantes.
Ensinar isso corretamente significa transformar teoria, matemática, hidrostática e prática de bordo em conhecimento que um oficial possa utilizar no mundo real.
É justamente aí que aparece a importância de um professor vindo da própria profissão.
O mar não permite que o conhecimento permaneça abstrato por muito tempo. Uma fórmula ensinada em sala de aula pode, alguns meses depois, fazer parte de uma decisão tomada diante de milhares de toneladas de carga.
Carlos Rubens compreendia os dois lados dessa equação.
Era Capitão de Longo Curso e era professor.
Sua produção técnica tornou-se referência para estudantes e profissionais da Marinha Mercante, fazendo com que seu nome permanecesse ligado à formação náutica brasileira mesmo depois de sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 2 de agosto de 1991.
Existe algo de particular na profissão de professor de uma escola de Marinha Mercante.
Ele não sabe exatamente onde seus alunos estarão alguns anos depois.
Um poderá estar atravessando o Atlântico. Outro entrando em um porto brasileiro durante a madrugada. Um terceiro poderá ser imediato. Outro, comandante. Alguns deixarão o embarque e levarão aquele conhecimento para empresas, terminais, universidades ou órgãos do setor marítimo.
A aula continua viajando mesmo quando o professor permanece em terra.
Talvez seja essa uma das melhores maneiras de compreender a trajetória do CLC Carlos Rubens Caminha Gomes.
Ele navegou.
Mas parte importante de sua contribuição à Marinha Mercante brasileira foi fazer com que seu conhecimento embarcasse com outros.
E continuasse navegando.
imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Rubens_Caminha_Gomes