
Há carreiras na Marinha Mercante que podem ser contadas pelos navios comandados, pelas milhas navegadas e pelos anos passados no mar. Outras continuam depois do desembarque, quando a experiência acumulada passa a servir para preservar a memória, transmitir conhecimento e representar aqueles que fizeram da navegação uma profissão.
O Capitão de Longo Curso Afonso de Almeida Corrêa reúne essas duas dimensões.
Com uma longa trajetória profissional na Marinha Mercante brasileira, Afonso chegou a uma fase da vida em que o reconhecimento já não vem apenas dos companheiros de profissão. Em 2025, recebeu da Marinha do Brasil o Distintivo de Comodoro, concedido durante as comemorações do Dia Marítimo Mundial.
A razão registrada pela própria Marinha dá a dimensão da homenagem: Afonso foi distinguido por ser um dos comandantes mais antigos da Marinha Mercante brasileira e pelos serviços prestados durante muitos anos de dedicação ao trabalho no mar.
Para quem conhece a tradição marítima, o título de Comodoro carrega um simbolismo especial. Não é apenas mais uma distinção colocada ao lado do nome. Representa o reconhecimento de uma trajetória construída ao longo de décadas em uma profissão na qual experiência, responsabilidade e conhecimento são conquistados viagem após viagem.
Mas a história de Afonso não terminou quando o mar deixou de ser seu principal local de trabalho.
Uma parte importante dessa trajetória passou a ser dedicada ao Centro dos Capitães da Marinha Mercante – CCMM, instituição na qual ocupou diferentes responsabilidades. Em 2020, documentação do próprio Centro o registrava como Diretor de Comunicação Social. Alguns anos depois, já aparecia exercendo a função de Diretor Administrativo.
É justamente nessa fase que surge outra característica marcante de Afonso: a vontade de contar histórias.
Ele esteve diretamente ligado à produção da Revista Eletrônica do CCMM e de O Sextante, publicações que ajudaram a registrar personagens, acontecimentos, histórias e temas ligados à navegação e à comunidade marítima. Em 2021, uma publicação especializada já o descrevia como responsável pelos dois veículos e destacava sua atuação como escritor.
Talvez isso diga muito sobre quem passou tantos anos no mar.
Quem navega durante décadas acumula histórias que dificilmente aparecem nos documentos oficiais. São episódios de bordo, portos, comandantes, tripulações, tempestades, acidentes, encontros e situações que acabam desaparecendo quando ninguém resolve escrevê-los.
Afonso resolveu escrever.
E foi além dos assuntos cotidianos da Marinha Mercante.
Um de seus trabalhos, “Teriam os chineses descoberto as Américas?”, discutiu as hipóteses de viagens marítimas anteriores à chegada de Cristóvão Colombo ao continente americano, passando por registros históricos, antigos navegadores e expedições chinesas. O artigo havia sido publicado originalmente em O Sextante, em outubro de 2021.
Depois, atravessou os limites do informativo do CCMM.
O trabalho foi publicado pela tradicional Revista Marítima Brasileira, onde Afonso aparece identificado como Capitão de Longo Curso e Diretor de Comunicação do Centro dos Capitães da Marinha Mercante.
É uma passagem interessante de sua trajetória porque aproxima dois mundos que nem sempre caminham juntos: o conhecimento adquirido pela prática e a preocupação em pesquisá-lo, organizá-lo e transformá-lo em registro.
Sua atuação institucional também ultrapassou os limites físicos do CCMM.
Em outubro de 2020, Afonso participou de encontro no Comando do 4º Distrito Naval, em Belém, no qual foram tratados assuntos relacionados ao desenvolvimento regional e à segurança da navegação no Pará. O registro daquele encontro já o apresentava como diretor do Centro dos Capitães da Marinha Mercante.
Há uma coerência nisso tudo.
Primeiro veio o homem do mar. Depois, sem abandonar aquilo que o formou profissionalmente, vieram o dirigente, o articulador, o escritor e o guardião de histórias que pertencem não apenas a ele, mas à própria Marinha Mercante brasileira.
Em uma atividade que muda rapidamente, preservar essa memória é particularmente importante. Os navios mudaram, as tecnologias de navegação evoluíram, as comunicações transformaram completamente a vida a bordo e muitas das práticas que fizeram parte da rotina de gerações de marítimos já desapareceram.
Os homens que viveram essas transformações são, portanto, também testemunhas de uma época.
Em 2025, quando recebeu o Distintivo de Comodoro, Afonso de Almeida Corrêa recebeu uma homenagem pelaquilo que fez durante tantos anos no mar.
Mas sua contribuição talvez possa ser medida também pelo que resolveu fazer depois dele.
Continuar presente. Participar do CCMM. Escrever. Registrar. Contar histórias.
Porque chega um momento em que um comandante já não precisa estar no passadiço para continuar ajudando a conduzir a Marinha Mercante.
imagem: