
A formação dos oficiais da Marinha Mercante brasileira acompanha uma transformação que começou muito antes dos atuais passadiços digitais, pois, à medida que os navios incorporaram novas tecnologias, também se modificaram as responsabilidades e os conhecimentos exigidos daqueles que os conduzem. Essa preocupação aparece na própria história do Centro dos Capitães da Marinha Mercante, que estabeleceu entre suas finalidades incentivar o aperfeiçoamento da educação náutica, dos padrões de treinamento e da literatura profissional destinada aos comandantes e demais profissionais do setor.
Ensinar navegação, portanto, nunca significou simplesmente ensinar alguém a determinar onde o navio está e qual rumo deverá seguir. Durante décadas, a formação exigiu domínio das cartas náuticas em papel, dos instrumentos de navegação, dos cálculos e das observações que permitiam ao oficial reunir informações provenientes de diferentes fontes para formar uma imagem segura da situação do navio.
Com a evolução tecnológica, parte desse trabalho passou a ser realizada com enorme rapidez pelos equipamentos eletrônicos. Entretanto, embora a tecnologia tenha simplificado determinadas tarefas, ela também trouxe uma nova exigência: o profissional deixou de depender apenas da capacidade de obter informações e passou a precisar, cada vez mais, saber interpretá-las, compará-las e identificar quando alguma delas não corresponde à realidade observada.
Essa transformação já estava sendo discutida no final da década de 1990. Em 1998, durante um simpósio realizado no CIAGA para debater a Formação Unificada do Oficial da Marinha Mercante, representantes de diferentes segmentos do setor, entre eles o Centro dos Capitães, analisaram as mudanças que a automação estava provocando a bordo e nos terminais. O debate apontava para a necessidade de formar profissionais preparados para sistemas operacionais cada vez mais integrados e, ao mesmo tempo, compatíveis com os padrões internacionais estabelecidos pela Convenção STCW.
O interessante é perceber que aquela discussão ocorreu quando muitas das tecnologias hoje consideradas normais ainda estavam em processo de disseminação. Desde então, ECDIS, AIS, posicionamento por satélite, radares integrados, sistemas de comunicação e diferentes níveis de automação passaram a fornecer ao passadiço uma quantidade de dados que seria difícil imaginar algumas décadas antes.
Entretanto, receber mais informação não significa necessariamente compreender melhor aquilo que está acontecendo. Um equipamento pode apresentar posição, rumo, velocidade, profundidade e aproximação de outras embarcações, porém cabe ao oficial interpretar esse conjunto e decidir se as informações são coerentes entre si e com aquilo que efetivamente ocorre ao redor do navio.
É justamente nesse ponto que formação e experiência voltam a se encontrar, porque uma escola pode transmitir fundamentos, ensinar procedimentos e preparar o futuro oficial para operar sistemas modernos, enquanto a experiência profissional acrescentará, ao longo dos anos, situações que dificilmente poderiam ser reproduzidas integralmente em uma sala de aula.
Essa relação entre diferentes gerações pôde ser observada em 2023, quando alunos do terceiro ano da EFOMM do CIABA visitaram o Centro dos Capitães e foram recebidos pelos CLCs Francisco César Monteiro Gondar e Hildelene Lobato Bahia. O encontro proporcionou aos futuros oficiais contato direto com profissionais que acumularam décadas de experiência na atividade marítima, permitindo que conhecimentos adquiridos durante uma carreira fossem compartilhados com aqueles que ainda se preparavam para iniciá-la.
É nesse intercâmbio que uma instituição como o CCMM encontra uma de suas funções mais importantes. Os equipamentos continuarão evoluindo, novos sistemas chegarão aos navios e os programas de formação precisarão acompanhar essas mudanças, porém existe uma parcela do conhecimento marítimo que depende da transmissão da experiência acumulada por aqueles que já enfrentaram situações reais no mar.
Por isso, formar um oficial da Marinha Mercante continua sendo um processo muito mais amplo do que ensinar técnicas de navegação. É necessário preparar alguém capaz de compreender sistemas, interpretar informações, reconhecer limitações tecnológicas e tomar decisões quando aquilo que aparece diante dos olhos não corresponde exatamente ao que estava previsto.
A tecnologia continuará mudando a maneira de navegar, mas será sempre necessário formar profissionais capazes de compreender aquilo que a tecnologia lhes mostra e, principalmente, de perceber quando é preciso questioná-la.
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