Novas embarcações de apoio colocam a indústria naval brasileira diante de um teste de continuidade

por CCMM

Contratos de R$ 11 bilhões preveem a construção de quatro navios especializados em Santa Catarina, com propulsão híbrida e até 80% de conteúdo local.

A assinatura dos contratos para a construção de quatro embarcações de apoio submarino no Brasil abre uma nova frente de trabalho para a indústria naval. Com valor total de R$ 11 bilhões, os acordos envolvem construção, afretamento e prestação de serviços, além de estabelecerem uma demanda de longo prazo para o Estaleiro Navship, em Navegantes, Santa Catarina.

As unidades serão construídas para a DOF Subsea e operarão a serviço da Petrobras em águas profundas e ultraprofundas. Os navios serão do tipo RSV, sigla de ROV Support Vessel, uma categoria destinada ao suporte de veículos submarinos operados remotamente.

Esses veículos realizam inspeções, filmagens, intervenções e acompanhamento de trabalhos em equipamentos instalados no fundo do mar. Por isso, um RSV não funciona apenas como plataforma de transporte. Ele precisa manter posição com precisão, fornecer energia, comunicação e controle aos sistemas submarinos e oferecer condições seguras para equipes técnicas especializadas.

As novas embarcações serão equipadas com propulsão híbrida, combinando motores, sistemas elétricos e baterias. Essa configuração permite armazenar energia e utilizá-la em momentos de maior demanda, reduzindo a necessidade de manter todos os geradores funcionando continuamente.

Em operações de posicionamento dinâmico, nas quais o navio permanece próximo a uma instalação submarina, as variações de potência são frequentes. O sistema híbrido pode responder a essas mudanças, melhorar a eficiência dos motores e reduzir consumo, ruído e emissões.

A previsão é alcançar até 80% de conteúdo local durante a construção e aproximadamente 90% na fase de operação. A Petrobras estima a geração de cerca de 7 mil empregos diretos e indiretos, dos quais aproximadamente 1,5 mil serão diretos.

O número de postos de trabalho, entretanto, não é o único indicador relevante. Projetos tecnologicamente complexos mobilizam engenharia, integração de sistemas, automação, fornecedores de componentes, empresas de certificação, serviços técnicos e formação profissional. Quando os contratos são executados de maneira contínua, essas competências permanecem disponíveis para encomendas posteriores.

Esse é justamente um dos principais desafios da construção naval brasileira. O país já atravessou períodos de expansão acelerada seguidos por quedas abruptas na demanda. A interrupção dos projetos provoca perda de trabalhadores qualificados, fechamento de fornecedores e deterioração das instalações, tornando cada retomada mais cara e demorada.

A encomenda dos quatro RSVs representa uma oportunidade de reativação, mas seu efeito será maior se fizer parte de uma sequência previsível de projetos. Um estaleiro não alcança produtividade internacional apenas com uma obra isolada; ele precisa repetir processos, aprimorar métodos e conservar equipes entre diferentes contratos.

As embarcações também mostram como a demanda offshore pode impulsionar tecnologias posteriormente aplicáveis a outros segmentos da Marinha Mercante. Propulsão híbrida, gestão de energia, baterias e sistemas avançados de automação tendem a aparecer em rebocadores, ferries, embarcações costeiras e navios especializados.

Portanto, o resultado dos contratos deverá ser medido não apenas pelos quatro navios entregues, mas pela capacidade de transformar a encomenda em experiência acumulada, qualificação industrial e continuidade para a cadeia naval brasileira.

imagem: images.squarespace-cdn.com

Categoria editorial: 3.Indústria Naval & Tecnologia

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