
Durante muito tempo, embarcar significava também aceitar uma forma particular de distância. Telefonemas dependiam da chegada ao porto, mensagens demoravam e acontecimentos familiares podiam ser conhecidos dias depois. A expansão da internet por satélite está mudando essa experiência e colocando a conectividade entre os elementos que interferem diretamente na vida de quem trabalha no mar.
Uma chamada de vídeo feita do camarote parece algo corriqueiro para quem está em terra. Para um marítimo que permanece semanas ou meses afastado, ela representa a possibilidade de acompanhar a rotina dos filhos, conversar com a família e participar de acontecimentos dos quais antes estaria praticamente isolado.
Essa transformação já chegou às normas internacionais do trabalho marítimo.
Alterações na Convenção do Trabalho Marítimo passaram a tratar da conectividade social dos marítimos e do acesso à internet a bordo. A preocupação é permitir que quem trabalha embarcado mantenha contato com familiares e amigos durante longos períodos de afastamento.
A tecnologia também mudou rapidamente. Sistemas de comunicação por satélite com maior capacidade permitem hoje realizar chamadas de vídeo, utilizar aplicativos de mensagens e acessar serviços digitais em condições muito diferentes daquelas existentes há poucos anos.
Mas a internet a bordo criou uma situação que merece ser observada com cuidado.
Ao mesmo tempo em que aproxima o marítimo de casa, ela pode afastá-lo das pessoas que estão fisicamente ao seu lado.
Depois do serviço, parte da convivência que acontecia nos espaços comuns pode migrar para a tela do telefone. Cada tripulante conversa com sua família, acompanha suas redes sociais ou assiste individualmente ao seu conteúdo. A comunicação com terra aumenta, enquanto a convivência dentro do próprio navio pode diminuir.
Essa contradição já aparece nas discussões internacionais sobre bem-estar das tripulações. A conectividade é considerada uma ferramenta importante contra o isolamento provocado pelo afastamento familiar, mas não elimina a necessidade de interação social a bordo.
Existe ainda outro aspecto. Quanto maior a conectividade, maior a exposição a riscos digitais. O telefone pessoal do tripulante, aplicativos, mensagens, links e arquivos recebidos passam a conviver com um navio cada vez mais conectado operacionalmente. Educação digital e segurança cibernética, portanto, começam a fazer parte dessa nova realidade.
Para as empresas de navegação, oferecer boa conectividade também ganhou importância na atração e retenção de profissionais. Uma geração acostumada a permanecer permanentemente conectada dificilmente enxerga meses de acesso precário à internet como uma condição irrelevante do emprego.
A vida embarcada continuará impondo distância física. Nenhuma conexão por satélite muda o fato de que o marítimo está longe de casa, trabalhando em horários próprios e submetido às exigências da operação de um navio.
O que mudou foi a maneira de viver essa distância.
Hoje, uma pessoa pode estar no meio do oceano e, alguns segundos depois, aparecer na tela da sala de sua casa. Para quem vive do mar, essa pequena janela digital começou a mudar profundamente o significado de estar longe.
imagem: www.naval.com.br
Categoria: 7.Pessoas, Formação & Vida no Mar