
Na noite de 22 para 23 de junho de 1996, o navio brasileiro Jurupema atravessava o Oceano Índico carregado de petróleo quando recebeu um pedido de socorro. O cargueiro cipriota Sundance, com 29 pessoas a bordo, fazia água e corria risco de afundar. O mar estava revolto, com ondas de oito a nove metros. Ainda assim, o comandante do Jurupema, Capitão de Longo Curso Luiz Augusto Campos Ventura, mudou o rumo para tentar alcançar a embarcação.
O Jurupema navegava com dificuldade sob ventos fortes da monção de verão. Ventura calculou que o navio poderia chegar ao Sundance por volta da meia-noite. Quando se aproximou, acompanhou o cargueiro a uma distância segura enquanto o comandante cipriota tentava seguir até a Ilha de Socotra. Pouco depois das três da manhã, veio o aviso pelo rádio: não era mais possível continuar. A tripulação começaria a abandonar o navio.
No escuro, os primeiros sinais eram difíceis de interpretar. Uma balsa inflável apareceu vazia. Dois homens foram vistos na água, levados pelas ondas. Então foguetes de sinalização iluminaram a noite e indicaram onde estava uma baleeira. A equipe do Jurupema precisava se aproximar sem deixar que o mar lançasse uma embarcação contra a outra.
Depois de tentativas frustradas, os marinheiros conseguiram passar um cabo e puxar a baleeira até o costado. Quinze pessoas subiram a bordo pela escada. Entre elas estava o comandante do Sundance, ferido na mão durante o abandono. Ele informou que outras doze pessoas estavam numa balsa à deriva e que dois tripulantes tinham caído no mar.
A luz do dia ajudou na segunda aproximação, mas não tornou a tarefa simples. A balsa, mais leve, deslocava-se com o vento e a corrente. O resgate exigiu novas manobras; a tripulação do Jurupema trabalhava com o convés varrido pelas ondas e já estava cansada. Entre os sobreviventes estavam a esposa do chefe de máquinas, assustada com o que havia acontecido, e o cozinheiro filipino, que precisou ser içado com um cinto de segurança.
Ao final, o relato de Ventura registra 27 pessoas resgatadas. Os dois tripulantes que haviam caído no mar não foram encontrados, apesar das buscas. O Jurupema seguiu para Durban, na África do Sul, com os sobreviventes a bordo. A viagem até o porto levou dez dias.
A história voltou a circular nas páginas do CCMM. O Sextante, em sua edição de 5 de julho de 2017, publicou “Solidariedade Marinheira”; a Revista Eletrônica do Centro também registrou o salvamento. O texto preserva algo que um número não consegue contar sozinho: a decisão de alterar uma viagem comercial, a coordenação entre tripulações e as tentativas necessárias para trazer cada pessoa para bordo.
O Sundance desapareceu no Índico, mas a história do resgate permaneceu. Ao recuperá-la, o CCMM não guarda somente a memória de um navio ou de uma operação. Guarda o registro de marinheiros que, diante do perigo, interromperam a própria rota para responder ao pedido de ajuda de outros homens do mar.
imagem: static.projetomemoria.org
Categoria: História & Memória