“Escolta de gaivotas no Rio da Prata”… a saga continua

por CCMM_colab

por José Narciso de Moraes

Duas gerações de marinheiros

A guarnição de um navio a motor da classe do “Amaralina” varia de 34 a 38 homens.

Oficiais, temos: Comandante, Imediato, Chefe-de-Máquinas, que podemos classificar de “superiores”, por lhe serem atribuídas responsabilidades de comando. Subalternos, temos: 1º, 2º e 3º Maquinistas, supervisionando a equipe que trabalha nos Compartimentos de Máquinas; 1º Piloto, 2º Piloto e Praticante-de-Piloto, oficiais de navegação; o Contramestre, que supervisiona a turma de convés. Existem, ainda, oficiais especialistas: Radiotelegrafista e Enfermeiro. Nos barcos em que essa última função é de alçada duma enfermeira diplomada à qual, não sendo considerada Oficial, é Tripulante-Especial.

Os Tripulantes, basicamente, podem ser divididos em [palavra pouco legível]: Máquinas, Navegação, Convés e Serviços, Cozinha e Taifeiragem.

As diferentes origens geográficas dessa gente (os homens do mar no Brasil vêm de regiões tão diversas como o Nordeste, a Guanabara e Santa Catarina, para só citar três grandes fontes de mão-de-obra marinheira), as múltiplas classes sociais a que pertencem em terra (Oficiais de Náutica e de Máquinas, em geral, provêm da classe média; oficiais-sem-acesso, Contramestres, Radiotelegrafista, Enfermeiro, da pequena burguesia ou das classes trabalhadoras; Tripulantes, do operariado ou do subproletariado), as diferenças de formação profissional e nível cultural (Oficiais de Náutica e de Máquinas têm grau de conhecimentos perfeitamente equivalentes aos de muitos profissionais formados em universidades; os outros oficiais quase sempre estão abaixo; os tripulantes, mais ainda)… todas essas diferenças jogadas numa comunidade pequena e fechada talvez resultassem explosivas, no tocante ao inter-relacionamento humano, se rapidamente não fossem amalgamadas pela comum necessidade de vencer o mar conduzindo o navio. E o artífice dessa amálgama é o Comandante.

Mas tudo isso é história antiga, desde que há mar, navio e marinheiro.

Existe, ainda, em todas as marinhas mercantes que emergem da mediocridade para uma dimensão compatível com o cumprimento da sua tarefa, um outro fator de divisão:

– A idade.

Não estamos nos referindo somente às diferenças entre gerações, as quais, naturalmente, existem a bordo como existem numa fábrica, numa loja, num escritório. Pensamos, também, no abismo que existe entre as experiências e o tipo de conhecimento, de raciocínio, entre os marítimos “antigos”, isto é, aqueles que serviam na Marinha Mercante Brasileira antes de 1967, em sua maioria no LLOYD ou na COSTEIRA, e os “novos”, isto é, os jovens Pilotos e Maquinistas que se formaram após 1967, portanto dentro dos novos padrões técnicos, os quais estão tentando se afirmar como os predominantes na Nova Marinha Mercante Brasileira.

As duas “escolas”, a dos antigos e a dos novos, têm os seus aspectos positivos e negativos. Mas é melhor passarmos a palavra a oficiais e tripulantes:

Eivind Borges, Capitão-de-Longo-Curso, quase 40 anos de mar, mais de 20 em comando:

– “Os navios e os marinheiros mudaram muito, desde que eu comecei a navegar como praticante de piloto, lá por [1933, leitura incerta]. Para início de conversa: antes de estudarmos, na antiga escola de pilotos, tínhamos que ter prática. Eu, por exemplo, primeiro passei uns meses embarcado, praticando navegação, depois é que fui aprender a teoria. E sempre intercalando com a prática, por meio de viagens nos intervalos do curso. Hoje, em dia, [palavra pouco legível] o jovem a um curso inteiramente teórico em nossas duas escolas de marinha mercante e, depois, joga-se ele a bordo para uma praticagem de navegação de 6 meses.”

“6 meses!… Numa linha Buenos Aires-Europa, esse período não é mais do que 3 viagens de ida e volta!… Tempo que não é suficiente para formar oficiais competentes, capazes de se desincumbir de um quarto com perfeita segurança.”

“É claro que isso se torna mais grave, se considerarmos que, hoje, os equipamentos dos barcos são mais técnicos, mais sofisticados e que, portanto, se isso facilita as tarefas, por isso mesmo exige gente mais experimentada e responsável profissionalmente.”

Hélio Praxedes Ferreira, Capitão-de-Cabotagem, mais de 20 anos de mar, Imediato do Amaralina:

– “Acho que, embora essa juventude toda esteja recebendo um preparo intelectual excelente, falta-lhes experiência profissional, vivência do mar, na mesma medida que vão galgando os postos.”

“É natural isso, até certo ponto; pois o Brasil está construindo cada vez mais navios e necessita de gente para guarnecê-los. Mas eu acho que a instrução prática, antes do embarque do rapaz já como oficial, deveria ser mais cuidada.”

– “Digamos, com a aquisição de um ou dois navios-escola para a Marinha Mercante…”

– “É uma boa sugestão. Mas não creio que seja medida suficiente. Concordo com a ideia que penso ser a mesma do Comandante: após sair da Escola de Marinha Mercante, o Praticante-de-Piloto deveria praticar mais tempo, antes de ser diplomado 2º Piloto.”

– “E a disciplina?…”

Comandante Borges:

– “Essa gente moça de hoje em dia é diferente. São diplomados 2º pilotos e já pensam em se casar, em comprar apartamento, ações. São econômicos. Nos portos, são bem comportados. No nosso tempo, queimávamos o dinheiro nos cabarés dos portos. Éramos boêmios, namoradores… e nos divertíamos muito mais! É verdade que procurávamos em terra compensar uma vida de bordo que era muito mais sacrificada. Veja o primeiro navio em que embarquei, por exemplo, um cargueiro do Lloyd que, naquele tempo, já era velhíssimo: quando a gente queria tomar um banho, tinha que pedir ao cozinheiro um balde d’água; e, depois, se esfregar na unha, para ficar limpo e tirar todo o sabão. E nada de, vez ou outra, poder levar a família. Sempre sozinhos. Por isso tudo, o porto era o desabafo físico e psicológico de todos nós. Hoje o tripulante é bem alojado, bem alimentado… tem todo o conforto a bordo e ainda pode, uma vez por ano, levar a família consigo.”

Imediato Hélio:

– “Acho que a disciplina funcional é boa, não faltando nada a dever à do tempo em que iniciei, lá por volta de 1950. Há coisas com as quais, nós oficiais mais antigos, não nos acostumamos; cabelo comprido é uma delas. Mas isso é natural, é a moda. Não tem mais a ver com o comportamento moral e profissional do homem. Embora, a meu ver, prejudique a uniformidade de apresentação, o ‘bom aspecto’ do conjunto da guarnição. Mas tudo o que nós devemos fazer a respeito é dar exemplo. Na empresa em que trabalho atualmente, em todos os navios, Comandantes, Imediatos, Chefes-de-Máquinas e, também, os 1ºs Pilotos, pela apresentação impecável que sempre procuram ter e pela difusão duma mística do oficialato, estão conseguindo, aos poucos, mas firmemente, que os oficiais mais jovens os imitem.”

Marinheiro Altamir:

– “Acho que, hoje em dia, vale a pena ser marítimo. O salário é melhor do que qualquer um que eu poderia conseguir em terra. As empresas tratam bem da gente, dão boa comida e deixam até trazer a família, os que têm, em certas viagens. Não vivi a vida a bordo antigamente, faz só 6 anos que estou embarcado, mas pelo que contam coisas que vêm do ‘tempo antigo’, devia ser ruinzinha.”

Marinheiro Belizário:

“Sou marinheiro há 30 anos. E sempre gostei dessa vida. Achava natural tudo o que ela era para a gente. Agora, de uns anos para cá, desde que o Brasil começou a fazer navios e as empresas a crescerem, a necessitarem de mais tripulantes, os armadores fizeram a nossa vida melhorar muito. E é claro, gosto muito mais da vida atual.”

Noivos da fatalidade

São 3 horas da manhã.

Ultrapassando o mar grosso, o navio desliza mansamente pelo Rio da Prata, próximo à costa uruguaia.

O vento frio nos faz procurar abrigo no interior do barco. Descemos até a coberta dos oficiais. Ouve-se um violão. É música espanhola. Uma toada lenta, bem sentimental. Melancólica, se tem letra, certamente falará de saudade.

Quem toca é o 2º Maquinista. Assistindo, o Enfermeiro-Comissário, o Praticante-de-Piloto e o Contramestre.

A música cessa. Começa a conversa, alguém puxa um riso e outro o imita.

Afastamo-nos, para não sermos intrusos em um mundo que nos atrai muito, mas no qual não nos sentimos com o direito de agregar assim fortuitamente, como “turistas”.

Nós somos homens da terra, que todos os dias voltamos para casa e vemos a nossa família. Que temos um grau básico de conforto e segurança garantidos pelo sedentarismo.

Eles, os homens-do-mar, tal qual os aviadores, são os noivos da fatalidade.

São homens que, mesmo brincando, desfrutando, devem estar preparados.

É impressionante para um passageiro, por exemplo, ver afixada, em todas as cobertas, a lista de tarefas de cada um dos membros da guarnição, do comandante até o menos graduado ajudante de cozinha, em caso de incêndio ou de abandono do navio.

Eles, os homens-do-mar, nem se dão conta do que isso significa, como símbolo da insegurança básica de sua atividade. Pois, as 24 horas do seu dia, mesmo fora dos quartos-de-serviço, são 24 horas vividas profissionalmente. Mesmo quando estão ouvindo rádio, vendo televisão, o “Amaralina” é navio que oferece todo conforto à tripulação, lendo ou descansando.

Qualquer falha no motor, qualquer imprecisão no radar, qualquer balanço que, de suspeito, possa afetar a carga… coloca todos em tensão. E isso, que é inevitável mesmo durante uma viagem curta de 50 ou 60 horas, mostra aos eventuais passageiros que ainda viajam em cargueiros que uma guarnição de navio é muito mais do que uma soma de homens. É uma equipe.

A escolta das gaivotas

São 13 horas.

O “Amaralina” faz uma parada.

Uma lancha se aproxima.

É o prático do porto.

A boreste, o “Libertad”, ex-canhoneira-blindada da Marinha de Guerra Argentina, agora servindo como navio-farol. Ao redor do “Amaralina”, vários cargueiros fundeados espiam vez para atracar. Ao longe, na direção da proa, um pouco a bombordo, por entre a bruma, os primeiros contornos confusos de Buenos Aires.

As gaivotas, que há mais de 4 horas acompanhavam o navio, sobrevoam-no em círculo, agora. Só interrompendo essa amável missão de escolta para mergulhar nas águas barrentas do Prata.

Lembramos de outra viagem que fizemos.

Foi em um grande transatlântico inglês, em 1948.

Navio bonito, com salão-de-baile, cinema, piscina… jogos de bordo… navio com tantas solicitações que nunca nos deixou sentir o gosto da viagem por mar.

Nele também chegáramos a Buenos Aires.

E quando, como agora, parados para receber o prático, cruzou conosco o “Santarém” do Lloyd Brasileiro, navio construído na Alemanha, antes da 1ª Guerra Mundial. E que nessa ocasião, mais de 3 anos depois da 2ª Guerra, ainda formava, com tantos outros de sua geração, a espinha dorsal da Marinha Mercante Brasileira.

Lembramos da revolta que sentimos, com toda a raiva inconformada que nossos 15 anos eram capazes de produzir: “Porque eles têm navios grandes, novos… tantos navios!… e o Brasil só tem esses ‘banheiros’ por aqui?!”

Uma pequena sacrifício.

O “Amaralina” retoma a sua marcha.

O Comandante, o Imediato, os Pilotos e o Praticante, todos de azul-escuro, engravatados em seu primeiro uniforme, recebiam o Prático do Porto. Era a tradição da Nova Marinha Mercante Brasileira que já começava a funcionar, pela insistência de um componente quadro de oficiais mais antigos que dá exemplo de bons hábitos aos colegas mais novos.

Olhamos para a esteira do navio.

A Bandeira do Brasil drapejava ao vento frio do outono platino.

As gaivotas, atrás, por vezes avançando até o radar e a chaminé, escoltavam o navio.

Escoltavam uma equipe de homens à qual o Brasil confia o transporte de metade do seu comércio exterior.

Escoltavam os tripulantes do “Amaralina”… e dos “Its”, dos “Zeus”, dos “Frota”, dos “Gonçalo”, dos “Doce” e dos “Solimões”, mensageiros em todos os portos do mundo da nossa vocação marítima de brasileiros.

Fim.

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