A eólica offshore descobre o preço da instabilidade regulatória

por CCMM news_gp

Enquanto projetos são cancelados nos Estados Unidos, a Dinamarca abre uma nova rodada de investimentos e mostra como decisões políticas podem alterar o rumo de uma indústria inteira.

A expansão da energia eólica offshore sempre dependeu de condições naturais favoráveis, capacidade industrial e acesso a financiamento. Nos últimos anos, porém, outro elemento passou a ter peso semelhante: a previsibilidade política. Dois acontecimentos recentes, ocorridos em lados diferentes do Atlântico, ajudam a compreender por que esse fator se tornou decisivo.

Nos Estados Unidos, a companhia alemã RWE chegou a um acordo de US$ 1,22 bilhão com o governo para cancelar três arrendamentos destinados ao desenvolvimento de projetos eólicos offshore. As áreas estavam localizadas diante das costas de Nova York, Califórnia e Louisiana. Pelo entendimento anunciado, os recursos deverão ser redirecionados para investimentos em gás natural e gás natural liquefeito.

Poucos dias antes, a Dinamarca havia seguido na direção oposta. A Vattenfall foi escolhida para desenvolver dois parques eólicos nas águas dinamarquesas, no Mar do Norte e em Kattegat. A previsão é que os empreendimentos sejam concluídos em 2032 e produzam eletricidade equivalente ao consumo de pelo menos 1,8 milhão de residências.

Não se trata apenas de comparar países favoráveis ou contrários a determinada fonte de energia. O ponto central é que projetos offshore exigem estudos ambientais, licenciamento, engenharia, contratação de embarcações, construção de componentes e investimentos realizados ao longo de muitos anos. Quando as regras mudam durante esse percurso, áreas arrendadas podem perder valor antes mesmo de receber a primeira fundação.

O caso também demonstra que a transição energética não avança em linha reta. As decisões são influenciadas por preços da eletricidade, segurança energética, disponibilidade da rede, política industrial, inflação e prioridades governamentais. Nesse ambiente, investidores procuram mercados nos quais os compromissos permaneçam razoavelmente estáveis durante toda a vida do empreendimento.

Apesar das dificuldades recentes, o Conselho Global de Energia Eólica projeta que a capacidade eólica offshore mundial poderá crescer dos 92 GW registrados ao final de 2025 para aproximadamente 420 GW em 2035. O potencial continua expressivo, mas sua realização dependerá menos de anúncios ambiciosos e mais da capacidade dos países de oferecer regras duradouras.

Para o Brasil, que ainda estrutura seu mercado eólico offshore, a experiência internacional traz uma advertência importante: tão decisivo quanto aprovar projetos será construir um modelo regulatório capaz de sobreviver às mudanças de governo, às oscilações econômicas e aos longos prazos característicos da atividade no mar.

imagem: universo.uniateneu.edu.br

Categoria editorial: 4.Offshore & Energia no Mar

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