
A trajetória da Capitã de Longo Curso Daisy Lima da Silva Souza ajuda a contar uma mudança importante ocorrida dentro da própria Marinha Mercante brasileira. Não apenas pela carreira que construiu, mas por ter chegado a um lugar que, durante muito tempo, foi ocupado quase exclusivamente por homens: o comando de um grande navio mercante.
Daisy formou-se em Ciências Náuticas, com especialização em Náutica, pela Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, o CIABA, em 2003. Começou a carreira profissional na Flumar, no transporte de produtos químicos e gases, passando pelas funções de Segundo Oficial de Náutica, Oficial de Náutica Operador e Primeiro Oficial de Náutica.
Em 2006, ingressou na Aliança Navegação e Logística. Ali percorreu a sequência que todo oficial conhece bem, mas que, vista de fora, muitas vezes parece simples demais: Segundo Oficial, Primeiro Oficial, Imediato e, finalmente, Comandante. Entre um posto e outro existem anos de embarque, cursos, avaliações, responsabilidade crescente e uma quantidade enorme de situações que nenhuma sala de aula consegue reproduzir.
Em 2010, Daisy realizou no CIAGA o curso de aperfeiçoamento para oficiais de Náutica. Ao longo da carreira acumulou experiência em cabotagem, docagens, manobras e operações de carga em navios porta-contêineres, heavy lift e químicos. Em documentação apresentada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, sua trajetória registra mais de 4.800 dias de embarque.
Foi essa carreira que a levou a um marco: Daisy tornou-se a primeira brasileira a comandar um navio porta-contêineres e a primeira mulher a chegar ao comando na Aliança.
O pioneirismo chama a atenção, naturalmente. Mas há um risco quando se conta uma história como essa: deixar que o fato de ser mulher se torne maior do que a própria carreira profissional que a levou ao comando.
Um comandante não recebe um navio porque representa uma mudança social. Recebe porque está habilitado para assumir a responsabilidade pela embarcação, pela tripulação, pela carga, pela navegação e pelas decisões que precisam ser tomadas quando não existe escritório em terra para assumir o problema.
Em matéria da Agência Marinha de Notícias, Daisy aparece no comando do Aliança Leblon, empregado na cabotagem brasileira. Na ocasião, acumulava 21 anos de profissão, nove deles como comandante.
É interessante observar também a maneira como ela enxerga o próprio setor. Ao falar da cabotagem, Daisy chama a atenção para uma contradição brasileira bastante conhecida pelos profissionais do mar: um país de dimensões continentais, com enorme extensão de costa, ainda possui espaço para aproveitar muito mais intensamente o transporte marítimo.
Segundo ela, o navio permite transportar volumes que dificilmente encontram equivalente em outros modais e pode reduzir as emissões de carbono por carga transportada em relação ao transporte rodoviário. É uma avaliação feita não apenas por quem estuda logística, mas por quem vê diariamente essa logística funcionando a partir do passadiço.
Sua trajetória recebeu também reconhecimento fora do ambiente marítimo. Daisy possui, entre outras distinções, a Medalha do Mérito Marítimo, a Medalha Ex-Combatente José Moreira Pequeno e a Medalha Heróis da Campanha do Atlântico. Em março de 2026, foi apresentado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro projeto para conceder-lhe a Medalha Tiradentes.
Mas talvez exista uma maneira mais simples de medir a importância de uma pioneira.
No começo, uma mulher no passadiço chamava atenção. Depois, uma mulher como oficial passou a causar menos surpresa. Até que uma delas sentou na cadeira do comandante.
Quando isso deixa de ser novidade, o pioneirismo cumpriu boa parte de sua função.
Daisy Lima da Silva Souza entrou para a história por ter sido a primeira brasileira a comandar um porta-contêineres. Mas sua história profissional diz algo ainda mais importante: ela chegou lá percorrendo toda a escada da Marinha Mercante.
Degrau por degrau.
Como deve ser.
imagem: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/03/comandante-da-marinha-mercante-lutou-contra-solidao-e-sindrome-de-impostora.shtml