CLC Wesley Oliveira Collyer: uma vida entre o mar, o Direito e a memória

por CCMM

A vida profissional do Capitão de Longo Curso Wesley Oliveira Collyer poderia ter sido dividida em várias carreiras diferentes. Oficial da Marinha Mercante, comandante, inspetor da Frota Nacional de Petroleiros, professor, estudioso do Direito Marítimo, magistrado e escritor. No caso dele, porém, existe um fio ligando praticamente tudo: o mar.

Nascido em Rio Branco, no Acre, em 10 de março de 1947, Wesley pertence a uma família cuja relação com a navegação atravessa gerações. Seu avô, Charles Raymond Collyer, foi chefe de máquinas da Marinha Mercante brasileira. Antes dele, seu bisavô, Charles Clairville Collyer, já havia chegado ao Brasil comandando o próprio vapor no século XIX.

Wesley ingressou na Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro em 1965 e concluiu sua formação em 1968. Durante aquele período passou pelo navio de transporte de tropas Ary Parreiras, da Marinha do Brasil, e realizou treinamento em navios do Lloyd Brasileiro, entre eles Princesa Isabel, Princesa Leopoldina, Anna Nery, Rosa da Fonseca e Loide Argentina.

Em outubro de 1968, ingressou como Segundo Oficial de Náutica na Frota Nacional de Petroleiros, a Fronape, da Petrobras.

Começava ali uma história profissional que atravessaria algumas das fases mais importantes da expansão da frota petroleira brasileira.

Passou pelos postos da carreira e serviu em embarcações como Gabriel da Fonseca, Buracica, Horta Barbosa, Hamilton Lopes, Presidente Prudente de Moraes, Cairu, Presidente Wenceslau, Água Grande e Petrobras Nordeste. Chegaria a Capitão de Longo Curso e ao comando de navios da frota.

Algumas dessas experiências ajudam a entender o tipo de Marinha Mercante que Wesley viveu.

Em 1969, por exemplo, integrou a tripulação destinada ao Horta Barbosa e acompanhou a fase final de construção do petroleiro no estaleiro Odense, na Dinamarca. Poucos anos depois, como Primeiro Oficial, acompanhou no Japão a jumborização do Presidente Prudente de Moraes, uma intervenção destinada a ampliar o navio. Em 1974, voltou ao Japão para acompanhar a construção do VLCC Cairu.

Era uma época em que o crescimento da frota brasileira colocava oficiais nacionais diante de grandes navios, estaleiros estrangeiros e tecnologias que estavam transformando o transporte marítimo mundial.

Wesley não ficou apenas no passadiço. Entre 1979 e 1982, criou, implantou, coordenou e atuou como instrutor em cursos destinados a oficiais, comandantes e chefes de máquinas da Fronape. Também ensinou operações de lavagem de tanques com óleo cru, o Crude Oil Washing, dentro das novas exigências internacionais para petroleiros.

Entre janeiro de 1984 e agosto de 1986, ocupou o cargo de Inspetor-Geral da Frota Nacional de Petroleiros. Mais tarde, sua experiência seria utilizada também na administração da Petrobras, inclusive em questões relacionadas aos milhares de empregados marítimos, portuários e fluviários da companhia.

Até aí já haveria material suficiente para uma longa carreira.

Wesley resolveu começar outra.

Formou-se em Direito pelo Instituto Metodista Bennett, fez o Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra e, anos depois, concluiu mestrado em Ciência Jurídica na Universidade do Vale do Itajaí. Sua dissertação, apresentada em 2007, tratou da Lei de Modernização dos Portos e do Conselho de Autoridade Portuária, tendo o Porto de Itajaí como estudo de caso.

A experiência marítima passou então a conversar diretamente com o Direito.

Entre 1986 e 1988, atuou como juiz civil suplente do Tribunal Marítimo. Em 1994, ingressou por concurso na magistratura federal do Trabalho, exercendo a função em diferentes cidades da Região Norte. Também passou a ensinar Direito Marítimo, Direito Portuário e temas relacionados ao transporte aquaviário.

Essa combinação é menos comum do que parece.

Há excelentes juristas especializados em questões marítimas. Há excelentes comandantes com décadas de experiência no mar. Wesley Collyer reuniu as duas coisas.

Quando discutia juridicamente uma operação de navio, não precisava imaginar como era um passadiço, uma descarga de petroleiro ou a rotina de uma tripulação. Ele havia estado lá.

E ainda acrescentou uma terceira dimensão à carreira: a memória.

Wesley escreveu livros e artigos, participou da vida acadêmica e registrou histórias da navegação. Há, inclusive, uma ligação direta com o próprio Centro dos Capitães da Marinha Mercante: publicou textos no Diário de Bordo e posteriormente na Revista Eletrônica do CCMM, abordando personagens e episódios relacionados à memória marítima brasileira.

Isso tem um valor especial.

Navios que pareciam gigantescos desaparecem. Empresas mudam. Frotas são reorganizadas. Tecnologias tornam-se obsoletas. Até expressões usadas diariamente a bordo acabam desaparecendo.

Se ninguém registrar o que aconteceu, uma parte dessa história vai embora junto com aqueles que a viveram.

Wesley Oliveira Collyer fez o caminho contrário.

Primeiro viveu o mar. Depois ajudou a administrar seus homens e seus navios. Mais tarde passou a estudar suas leis, ensinar sua atividade e registrar sua memória.

Talvez seja por isso que, mesmo depois de centenas de milhares de milhas navegadas, sua viagem pela Marinha Mercante nunca tenha realmente terminado.

imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Wesley_Oliveira_Collyer#/media/Ficheiro:Entrevista_ao_Projeto_Mem%C3%B3ria,_2013.jpg

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