
Na Marinha Mercante, o tempo de comando tem um significado diferente. Não representa apenas antiguidade. Cada dia registrado nessa função significa que alguém esteve responsável por um navio, por sua tripulação, por sua carga e pelas decisões tomadas a bordo.
Na trajetória do Comodoro e Capitão de Longo Curso Paulo Cezar Souza Di Renna, esse número impressiona: 3.850 dias de efetivo comando de navios com arqueação bruta superior a 10 mil toneladas. São mais de dez anos, somados dia após dia, exercendo a maior responsabilidade profissional existente a bordo de um navio mercante.
Sua carreira ganhou reconhecimento especial em setembro de 2018, quando a Marinha do Brasil lhe concedeu o Distintivo de Comodoro da Marinha Mercante. A distinção não é simplesmente mais uma condecoração. Ela está ligada justamente à trajetória construída no comando de navios mercantes e representa uma das formas de reconhecimento aos Capitães de Longo Curso que se destacaram profissionalmente.
Pouco depois da concessão, a Diretoria de Portos e Costas realizou uma homenagem a Di Renna. O encontro, segundo a própria Marinha, simbolizou também a relação entre a Autoridade Marítima e os oficiais da Marinha Mercante.
Mas a carreira de Di Renna não se limitou ao conhecimento adquirido navegando.
Sua formação incluiu o Curso de Política e Estratégia Marítimas, da Escola de Guerra Naval, e MBA em Gestão Internacional pela COPPEAD/UFRJ. É uma combinação particularmente interessante para um comandante: de um lado, a experiência concreta de quem passou milhares de dias responsável por navios; de outro, o estudo da atividade marítima dentro de uma perspectiva estratégica e de gestão.
Há uma diferença importante entre conhecer um navio e conhecer o ambiente no qual esse navio opera.
O comandante precisa dominar navegação, segurança, operação, legislação e administração de pessoas. Mas, à medida que a carreira avança, começa também a enxergar o navio como parte de algo muito maior: empresas de navegação, portos, comércio exterior, política marítima, logística e interesses nacionais.
A formação complementar de Di Renna parece acompanhar exatamente essa ampliação de horizonte.
Ao longo de sua trajetória, recebeu também a Ordem do Mérito da Defesa, a Ordem do Mérito Naval, a Medalha Mérito Tamandaré e a Medalha do Pacificador. São distinções provenientes do ambiente militar, embora concedidas a um profissional cuja carreira foi construída na Marinha Mercante.
Essa proximidade entre as duas Marinhas às vezes provoca alguma confusão para quem está fora do setor.
A Marinha do Brasil e a Marinha Mercante possuem funções completamente diferentes. Uma está ligada à defesa naval e à soberania do país. A outra transporta cargas, pessoas e riquezas e participa diretamente da atividade econômica.
Mas ambas compartilham o mesmo espaço.
O mar.
É justamente nesse ponto que trajetórias como a de Paulo Cezar Souza Di Renna ganham significado. São profissionais civis do mar que, pela experiência acumulada, ajudam a manter uma cultura marítima que vai muito além da operação comercial de um navio.
Quase quatro mil dias no comando dizem muita coisa.
Significam portos chegando e ficando para trás. Madrugadas no passadiço. Mudanças de tempo. Manobras. Tripulações diferentes. Problemas resolvidos sem que ninguém em terra jamais soubesse que eles existiram.
É assim que boa parte da carreira de um comandante é construída.
Não diante do público, mas no mar.
imagem: http://www.amigosdomar.com.br/comodoro-di-renna-solenidade-dia-do-maritimo-mundial/